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Viva com mais calma

Exercitar a compreensão em relação a nós mesmos e ao mundo e desenvolver a paciência traz mais leveza para a rotina e paz interna.

08/04/2019 09:00:00
Foto: Freepik

Viver com mais calma talvez seja um desejo universal. Parece tão reconfortante tomar um café da manhã saboreando sem pressa o pedaço de bolo preferido, ter um dia de trabalho sem colegas que amolam a nossa paciência, voltar para casa com ruas livres — ou mesmo sem ninguém atravancando o lado esquerdo da escada rolante do metrô. Somos recebidos em casa com um sorriso doce de quem amamos, os filhos estão de banho tomado e, no final do jantar, nem deixam comida no prato.

Você aproveita a noite para assistir à sua série favorita ou dedicar um tempo a uma boa leitura. Parece que a vida seria muito mais fácil de manejar — e de aproveitar — se ela se desenrolasse assim, sem sobressaltos que nos tirassem do sério. Seríamos pessoas mais centradas e calmas (imagine ligar para a operadora de telefonia e ter seu problema resolvido pelo primeiro atendente, sem nem dar tempo de decorar a musiquinha da espera…).

O doloroso é que, bem, não é assim que as coisas acontecem. E é pouco provável que o mundo se torne assim, sem um desafio, mesmo se você decidir se mudar para uma casa no meio da montanha. Porque não é somente o lugar de fora, e sim esse espaço mental interno que torna a vida mais conflituosa ou saborosa. Mas a parte boa é que, se quem manda na percepção de como as coisas são é a mente, então podemos desenvolver habilidades para ganhar uma compreensão melhor sobre nós e sobre o outro, nos tornando menos ansiosos e mais tolerantes.

O que a gente quer contar a seguir é que viver com mais leveza e menos irritação diante dos contra-tempos é possível, mas antes precisamos compreender por que uma fechada no trânsito nos estressa tanto, ou por que podemos ser grosseiros e insuportáveis justamente com quem mais amamos. E é essencial saber: nos tornarmos pessoas calmas não significa que nunca mais uma situação de estresse vai nos atingir, mas sim que, aos poucos, desenvolveremos um estado de espírito mais apropriado para lidar com os desafios que resolverem empacar no lado livre da escada rolante da vida.
 
A expectativa, mãe da frustração

Um motivo essencial pelo qual muita coisa nos tira a nossa paz é a ilusão de que podemos controlar o mundo e a expectativa de viver sem contratempos, em que nada dá errado e ninguém nos incomoda. “Se olharmos mais de perto, vamos ver que não é a situação que está nos incomodando, e sim a nossa forma de enxergá-la. Nós nos sentimos infelizes não só porque algo ruim aconteceu mas também por causa do turbilhão de pensamentos sobre o que aconteceu”, escreve o monge zen-budista Haemin Sunin no livro As Coisas Que Você Só Vê Quando Desacelera.

Conversei com ele para entender melhor essa ideia de que é a nossa mente que cria estados mais calmos ou mais caóticos, e como isso pode influenciar o nosso jeito de perceber o mundo também.

Ele me respondeu: “Observe que, quando sua mente está ocupada, o mundo parece estar ocupado. Em contraste, quando sua mente está quieta, o mundo lhe parece muito pacífico. Não há como controlar todos os elementos do mundo. Isso é impossível. No entanto, é possível para nós cultivar o coração e a mente pacíficos, diminuindo a velocidade e apreciando verdadeiramente o que está diante de nós. Mesmo se você estiver na parte mais bela e pacífica do mundo, o mundo parecerá ocupado quando sua mente estiver muito ocupada”,  ele diz. Desacelerar nossos pensamentos, sugere, nos ajudaria a nos tornarmos menos reativos e raivosos com o que se passa conosco.

“Só quando desaceleramos é que é possível ver com clareza nossos relacionamentos, nossos pensamentos e nossa dor. À medida que notamos mais e mais aspectos do momento presente, chegamos à percepção mais profunda de que há um observador silencioso dentro de nós”, diz. Manter a calma não quer dizer que vamos ver a situação adversa como algo agradável, mas entender que bufar, sair de si ou espumar de raiva nos afasta da possibilidade de desenvolver uma compreensão mais leve do problema.

O preço da nossa intolerância

Acho meio vergonhoso aceitar, mas provavelmente as pessoas que mais amamos são aquelas que mais nos veem descontrolados e irritados. Se temos um dia ruim no trabalho, a nossa fúria tem grandes chances de respingar nos filhos, no companheiro, nos pais. São eles que melhor conhecem a nossa face mais dura. “Em nenhuma outra circunstância tendemos a nos comportar tão mal quanto em nossos relacionamentos. Neles, nos tornamos pessoas que nossos amigos mal reconheceriam. Descobrimos uma capacidade assustadora de sentir angústia e raiva, nos tornamos frios ou furiosos, saímos batendo portas. Gritamos e dizemos coisas que machucam”, diz o texto no livro Calma, produzido pela The School of Life.

A obra explora como a expectativa que criamos sobre algo que vai acontecer tem uma estreita relação com a nossa capacidade de perder a calma. Se a previsão de chuva era evidente e mesmo assim decidimos ir à praia, talvez não fiquemos tão descontrolados se as gotas caírem assim que os pés pisarem na areia. Mas abrir a gaveta onde você sempre deixa as chaves do carro e não encontrá-las lá pode gerar uma reação bem mais explosiva. 

E aí o problema dos relacionamentos é que não há ninguém de quem esperamos mais. Eles estão no topo da nossa expectativa. Pensamos que eles serão magicamente compreensivos quando quisermos ficar sós depois de um dia de trabalho cansativo, ou que sempre entenderão o nosso olhar mesmo que não tenhamos sido explícitos em comunicar as nossas necessidades com clareza. O caminho, sugere a obra, é aceitar que sermos mal compreendidos é bastante normal — e que um bom relacionamento não significa estar em acordo o tempo todo.

Não foi de propósito

Não só nos relacionamentos pessoais mas também entre aqueles que nem conhecemos, é bem comum pensarmos que fomos desagradados “de propósito”. De maneira geral, temos dificuldade em distinguir o “mal intencional” do “mal acidental”, como aquela fechada que você leva no trânsito, ou alguém que sem querer pisa no seu pé (ou no seu calo). Outra armadilha a que nossa mente pouco lúcida costuma se entregar é achar que o mundo está conspirando contra nós quando algo dá errado.

Não temos o controle de tudo. E, se por um lado isso traz uma impiedosa sensação de impotência, veja só, por outro também pode trazer imensa liberdade. No auge de um momento que pede calma, respirar também pode ser uma saída. A dica parece banal (“Respirar fundo? Ahn, tá…”), mas tem recebido cada vez mais atenção por ser mesmo poderosa. Danny Penman, instrutor de meditação e autor de A Arte de Respirar, me explicou por que dedicar alguns minutos para inspirar e expirar pode ajudar tanto.

Ele me relatou que todas as nossas emoções estão refletidas no jeito como respiramos. E sugere que tiremos alguns momentos durante o dia para ficar à sós com a gente através da respiração, capaz de ampliar ou dissolver nossas emoções mais destrutivas. “Essa técnica tremendamente poderosa pode ser usada em qualquer lugar, não apenas durante a meditação. Da próxima vez que você se sentir estressado, ou quando surgirem pensamentos ou emoções difíceis, simplesmente gaste algumas respirações prestando atenção à sua mente e depois siga com seu dia”, ensina. “É melhor notar o estresse no início e vê-lo se dissolver, em vez de tentar lidar com as consequências explosivas mais tarde.”
 
Uma rotina muito agitada

Talvez seu trabalho demande demais, ou a rotina da casa seja bastante exaustiva, e você já se vê no domingo ansioso pelas inúmeras tarefas que o esperam ao longo da semana. Os nossos modelos de vida atuais parecem exigir cada vez mais que sejamos produtivos. E, aí, querer uma vida mais calma pode soar como um desejo de alguém meio fraco ou preguiçoso, que não suporta as demandas da vida moderna.

Mas avaliar com sinceridade a forma como temos vivido pode apontar pistas para trazer para perto a calma de que a gente precisa. “Cada pessoa pode ter uma definição diferente para uma ‘vida tranquila’. Para mim, a vida tranquila tem o elemento de ser capaz de apreciar o que eu tenho agora, em vez de tentar chegar a algum outro lugar ou conseguir algo além do que estou fazendo neste momento”, diz o monge zen-budista Haemin. “Além disso, eu faço minhas tarefas devagar, seja comer, caminhar ou limpar as folhas que caem no quintal. Eu vejo mais graça em fazer a tarefa do que propriamente em terminá-la”, me diz.

Fonte: Vida Simples 
Texto: Débora Zenelato
Artigo completo aqui
Edição: C.S. 

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