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Projeto incentiva garotas a serem protagonistas na ciência

Cinquenta meninas de 11 a 15 anos tiveram a oportunidade de conhecer o trabalho de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

09/08/2019 13:56:00
Foto: Tássia Biazon (Revista Galileu)

OInstituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) não costuma receber tantas mulheres quanto deveria: aproximadamente 20% dos docentes e 27% dos estudantes de graduação e pós-graduação são do sexo feminino. Mas em junho deste ano, parte desse desequilíbrio foi revertido com a ajuda de 50 meninas entre 11 a 15 anos que participaram do projeto“Meninas SuperCientistas”: nos dias 1º, 8, 14 e 29 daquele mês, o IMECC abrigou o evento que tem o objetivo de incentivar mulheres a serem cientistas. O público-alvo são estudantes de escolas públicas e particulares da cidade de Campinas, no interior de São Paulo, e região.

“O Meninas SuperCientistas nasceu para possibilitar a interação de meninas com exemplos de mulheres cientistas entre alunas de graduação, pós-graduação e professoras de diversas áreas da ciência, como Matemática, Física, Astronomia, Engenharia e Biologia, e com isso aumentar a sensação de identidade com a área”, conta Anne Bronzi, professora do IMECC e organizadora do evento.

Julian Silva, graduanda em Medicina; Juliane Baiochi, mestrando em Matemática; e Marcela Medicina, graduanda em Matemática Aplicada, também foram responsáveis pelo desenvolvimento do projeto: a inspiração veio da iniciativa “Meninas com Ciência”, iniciada em 2016 por mulheres do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Embora de diferentes idades, escolas e cidades, as participantes sorteadas – em um total de quase 2,5 mil inscrições – tinham muito em comum: eram curiosas, interessadas e participativas. Giovana da Silva, que deseja ser médica neurocirurgiã está no 9º ano da Escola Estadual Prof. Carlos Lencastre de Campinas.

Para ela as atividades foram divertidas e as palestras, maravilhosas. “A ciência nos ajuda a compreender o mundo, o conhecimento tem um valor enorme e há muito a ser descoberto”. Helena Rodrigues, do 6º ano da Escola Municipal Carmelina de Castro Rinco de Campinas expressa que durante o evento “descobriu coisas que não descobriria sozinha”.

Além de gostar de biologia e veterinária, Amanda Nardi, aluna do 6º ano no Colégio Inovati de Valinhos, expressou sua preocupação com os impactos humanos na natureza: “Precisamos consumir menos, reciclar mais, optar por produtos de menor impacto etc.”, conta ela, que aprendeu esses valores com a mãe, que está em um curso técnico ambiental.

Para Beatriz Sá, o Meninas SuperCientistas mostrou a representatividade das mulheres na ciência e na universidade pública. “Na escola, as mulheres são invisíveis em muitos aspectos. As garotas não tem vontade de fazer parte da ciência pela falta de exemplos”, afirma a aluna do 9º ano da Escola Estadual Dr. Telêmaco Paioli Melges de Campinas. “É importante saber quem foram as grandes mulheres ao longo da história para que nós, meninas, possamos nos inspirar. E assim, despertar uma dessas grandes mulheres em cada uma de nós."

A ciência delas para elas

Iniciativas como palestras, experimentos, brincadeiras e trabalhos compuseram o projeto. A primeira atividade foi uma palestra sobre as formas de ingresso na Unicamp, ministrada por Márcia Mendonça, coordenadora acadêmica da Comissão Permanente Para os Vestibulares (Comvest). Ela explicou que o ingresso em uma das maiores universidades do país não se dá apenas por meio do vestibular. Ser o melhor aluno da escola ou aluno medalhista em uma olimpíada científica pode garantir uma vaga na Unicamp.

Explorando o universo matemático, as graduandas do curso de Licenciatura em Matemática do IMECC, Jessica Didole e Letícia Soriani, trouxeram conceitos sobre os sistemas de medidas e a geometria a partir do projeto “Fantástico Mundo Matemático”, canal do YouTube do professor Régis Varão que apresenta "o terror de muitos alunos" de maneira simples e divertida.

Além disso, as professoras do instituto Laura Rifo (que desenvolveu atividades sobre teoria da decisão e probabilidade) e Kelly Poldi (que apresentou a otimização por meio de exemplos cotidianos como arrumar a mochila para ir à escola) mostraram às meninas que ser uma matemática também pode ser um caminho bem-sucedido para as mulheres.

Além das palestras, as participantes também puderam presenciar muitas novidades tecnológicas. Se impressionaram com o funcionamento de impressora à laser, impressora 3D, placas arduino e circuitos elétricos, atividades coordenadas pela arquiteta e professora Gabriela Celani da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp. Para Celani, o evento foi uma grande oportunidade de incentivar meninas a serem cientistas.

“Sei que nem todas elas possuem incentivos ou exemplos como eu tive, então é muito bom compartilhar minha experiência com elas e, quem sabe, ajudar a mudar o rumo de suas carreiras”. Atualmente a professora desenvolve estudos sobre o uso da madeira engenheirada na construção de edifícios.

A pesquisadora Ana Zeri, que trabalha no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), é uma das cientistas que trabalha no novo acelerador de partículas brasileiro, o Sirius, e explicou às meninas os potenciais de aplicação do acelerador, para estudos com nanomoléculas, por exemplo. Formada em Física na Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, ela comenta que o principal desafio na área de pesquisa se relaciona com as oportunidades de estágios, bolsas de estudo e ofertas de trabalho.

“Morei em vários lugares, vivi com pouquíssimo dinheiro e longe de casa. Foi difícil, mas faria tudo de novo. Tive muitas alegrias durante meu percurso e espero continuar contribuindo com a criação de conhecimento”, diz Zeri.Segundo ela, é fantástico e fundamental mostrar às meninas as opções de carreira, encorajá-las a seguirem sua curiosidade, descobrirem seus gostos e suas habilidades. “Meninas podem ser o que quiserem! Cientistas, engenheiras, professoras, pilotos de avião, psicólogas, chefs de cozinha, lutadoras profissionais!”, ressalta.

Como últimas atividades do projeto, as participantes puderam aprender um pouquinho sobre programação com duas graduandas do curso de Ciência da Computação da Unicamp, além de participaram das atividades com diversos alunos do curso de Ciências Biológicas do Instituto de Biologia da Unicamp, que abordaram conceitos de genética, evolução, ecologia e produção científica. Por fim, visitaram o Museu Aberto de Astronomia, localizado no município de Joaquim Egídio, onde observaram o sol pelo telescópio e compreenderam um pouco mais sobre a vastidão do Universo.

Além de valorizar a carreira científica, que propõe soluções para diversos desafios da sociedade (crises hídricas, mobilidade urbana, controle de doenças, novas tecnologias), o evento é uma iniciativa em resposta a quantidade desproporcional de mulheres nas profissões STEM (acrônimo para Science, Technology, Engineering and Mathematics), reflexo de negligências na história, como a proibição das mulheres estudarem.

“Há projetos como o SuperCientistas, de inclusão de meninas em disciplinas científicas por meio de atividades exclusivas para elas e projetos que abordam o tema junto às "meninas mais velhas", como o Parent in Science, que discute os aspectos e as dificuldades de manter a produtividade científica e conciliá-la com os cuidados com os filhos, que na maioria dos casos ficam mais sob a responsabilidade da mãe do que do pai”, comenta Ricardo Martins, diretor associado do IMECC.

“Ao dizer que dada profissão não é para mulher (ou para homem) estamos desperdiçando talentos. Quanto mais pessoas se interessam por uma profissão melhores serão os profissionais daquela área”, diz a professora Anne Bronzi, que se inspirou no irmão mais velho para cursar matemática.

Dedicada à matemática pura, a coordenadora do projeto desenvolve estudos que auxiliam no desenvolvimento de modelos computacionais que simulam o movimento de fluidos, muito utilizados na construção de aviões, carros e navios, além de estar presente na indústria do entretenimento. “O filme Moana utiliza recursos computacionais para simular o movimento de bilhões de partículas de água e o resultado final se aproxima muito do movimento real da água”, exemplifica.

Recentemente foi criado no instituto o projeto "Grupo Elza", que está organizando vários eventos e palestras para reforçar a presença das mulheres na matemática. “Mais uma iniciativa importante, tanto para as meninas quanto para seus pais e mães. Com as famílias deixando de repetir frases estereotipadas como "engenharia é coisa de menino", certamente mais meninas farão cursos de exatas e, consequentemente, novos exemplos serão criados para as gerações mais novas”, ressalta Bronzi.

Fonte: Revista Galileu
Edição: C.S. 

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