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Desapegue

Encarar nossas dores, frustrações e medos é algo difícil, mas necessário.

11/07/2019 14:49:00
Imagem: Freepik

A tigelinha de porcelana, tão fina, tão amada, tão cuidada, quebrou. Não tem mais jeito. Ou melhor, dá para tentar disfarçar que nada aconteceu. E colar de uma maneira que as emendas não apareçam. Mas, ao passar dos anos, a cola vai ficar mais escura e suja, e revelará os caminhos onde os pedaços foram unidos. Não vai dar mais para esconder.

A segunda opção no caso de quebra, é simplesmente esquecer. Juntar os caquinhos e jogar fora. É prático. Mas, vou ser sincera, não resolve muito. Saiba que a dor da perda, sem a presença da amada tigelinha, vai permanecer. Mais ainda: vai fazer você sofrer em dobro na próxima quebra de outra tigelinha, pois as dores da perda de uma e de outra serão somadas e potencializadas. A partir desse momento, então, você poderá desejar nunca mais ter tigelinhas delicadas na prateleira. Não aceitará que a beleza é frágil e quase sempre passageira (se aceitasse, não sofreria).

Além de se privar desse encanto singelo que a vida proporciona, por si mesmo inocente e que não causa danos, aprenderá a fugir dele, porque a gente sempre foge da dor que envolve objetos que podem se partir. Percebe? Não é a tigelinha que nos faz sofrer, mas o apego que temos a ela. E enquanto essa cola estiver ali, seja por se desejar a presença do objeto amado, ou por aversão, por tentar evitar que ele nos cause mais sofrimento, a dor continuará a existir internamente. Mesmo ausente, a tigelinha estará presente em você. Pois, junto com ela, o seu coração também se partiu em pedaços. Enquanto ele não se recuperar, a sombra do mimo quebrado vai estar ali.

Mas há ainda uma terceira e quase desconhecida alternativa. Acostumados com a beleza e a fragilidade das porcelanas, os japoneses desenvolveram uma arte especial para lidar com tigelas partidas. Ela se chama kintsugi, palavra que quer dizer restauração com ouro. Isto é, com o kintsugi, eles assumem a quebra do objeto, reconhecem que nunca mais será o mesmo e, com extrema delicadeza e senso estético, unem os seus pedaços com ouro líquido. Deixam as marcas expostas, sem esconder nada, e constroem uma nova peça de mais valor, não só pela presença de um metal, mas pela arte e sensibilidade com que foi feita a sua recuperação. Esse texto é sobre a arte do kintsugi da alma.

O medo de não sobreviver

Na travessia de 40 dias pelo Oceano Atlântico dentro dos navios negreiros, as mães africanas se afligiam com a possibilidade de serem afastadas de suas crianças ao pisar em terra. Ao antecipar a dor de uma possível separação, rasgavam pedaços de suas saias para confeccionar bonecas de pano, chamadas de abayomi. Mesmo se elas não pudessem mais estar presentes, seus filhos poderiam simbolicamente conversar com suas mães por meio das abayomis. E, caso crescessem longe dessas mulheres e um dia as reencontrassem, por meio dos tecidos usados, poderiam reconhecer suas mães. Ao confeccionar essas bonecas, essas mães se defendiam do medo de morrer e da dor da separação do objeto de seu amor.

“Ao transferir seu amor para esse símbolo, ocorria um processo de cura. Havia o medo de morrer, a expectativa da separação, mas também a esperança embutida naqueles trapos”, diz Sandra Taiar, psicoterapeuta e professora da Fundação Palas Athena (SP). Ninguém sabia se as crianças conservariam as bonecas ou se iriam mesmo dialogar com elas na ausência de suas mães. “Mas, nessa transferência de maternidade, havia sempre uma esperança que ajudava a aliviar o coração”, diz Sandra. E a esperança se baseia em possibilidades, mesmo as remotas. Embora amassem seus filhos, essas mulheres aprenderam a lição do desapego emocional, que elas souberam tecer com tristeza, mas também beleza e poesia. A esperança no futuro é uma das formas de ouro líquido que pode curar feridas.

O medo de morrer é um dos três medos que alicerçam a vida, segundo o pesquisador em neurociência e psicoterapeuta americano Stanley Keleman. Nós nos apegamos a um objeto, a uma situação ou a uma pessoa, porque temos medo de não sobreviver sem sua presença. “Até certo ponto, ele é saudável, natural e pode ajudar a nos proteger”, conta Sandra, que segue a linha terapêutica de Keleman, entre outras.

“O problema é quando ele se torna exagerado e se transforma num grude que nos impede de agir”, diz. O pavor de não sobreviver fora da relação com o objeto de apego é a emoção básica que auxilia a manter relacionamentos abusivos, empregos nos quais a humilhação, o estresse e o assédio moral são frequentes, ou situações psicologicamente dilacerantes. Como toda emoção, ela pode ter fundamento ou não, isto é, pode ser mesmo que existam muitos obstáculos fora desses vínculos. O que não perbemos quando estamos debaixo desse jugo emocional é que os obstáculos podem ser superados.

O medo de morrer também é um dos três ingredientes que compõem a cola do apego emocional. Como os outros dois temores, o medo de enlouquecer e o medo de não pertencer, ele pode se transformar num pântano de areia movediça que nos asfixia e nos impede de mudar. E é sempre bom prestar atenção a qual dos três pode estancar nossa evolução e maturidade (vamos falar deles daqui a pouco).

Mas considere, por enquanto, que o medo é apenas uma emoção, um filtro da realidade. Se ele é negativo, o futuro parecerá muito pior do que realmente pode ser. Portanto, não confie muito no medo como conselheiro: frequentemente ele é exagerado. Por isso, questione sempre se não é muito melhor enfrentar os obstáculos do que sucumbir ao temor e ficar estagnado. É o que nos diz a história da mulher mais medrosa do mundo. Vou contá-la para vocês.

Além do limite

Sem um tostão no bolso, a paranaense Meiry Ito pegou seus três filhos pequenos e saiu do relacionamento abusivo em que vivia. Foi da pequena cidade de São Roque, no interior de São Paulo, para Santos. Começou a trabalhar e, aos poucos, foi crescendo profissinalmente. Casou mais duas vezes, na última delas com Celso, com quem viveu feliz por 20 anos.

“Se alguém me dissesse que passaria por tudo isso e que ainda viveria momentos prazerosos na vida, não acreditaria”, diz. “Eu sou a mulher mais medrosa do mundo. Saí no impulso porque não aguentava mais as traições, as brigas violentas. Tinha pavor de não sobreviver economicamente fora do casamento, mas o medo foi menor do que o sofrimento”. A vida pressionou sem dó, até ela ir além dos seus limites. E Meiry tornou-se corajosa.

Inteireza, um senso de autonomia e independência emocional, apesar de nossa fraqueza e medo, resultam em atos de coragem e ousadia. São formas de ouro líquido que nos ajudam a colar pedaços de vida. Essas referências de integridade, apesar do medo, podem ser encontradas em nossas famílias, livros, filmes ou histórias que escutamos. São relatos de vivências que podem nos ajudar a ultrapassar bloqueios que nos parecem instransponíveis. Como eu, inspire-se neles. Dá muito certo.

O medo de enlouquecer

O segundo grande medo da vida é o de enlouquecer, ainda de acordo com o pesquisador Stanley Keleman. Nesse caso, a dor é tanta que nos parece insuportável. E, de uma certa forma, é mesmo, principalmente se não temos um aprendizado anterior com outras dores menores que foram dissolvidas e curadas no coração.

Um adulto, a priori, deve ter aprendido que essas fases dolorosas são superáveis e suportáveis, mesmo que sejam muito doloridas. Ele já deve ter experimentado a dor de não ter a presença de um pai ou de um filho num evento importante de sua vida. O sentimento de rejeição com relação à primeira namorada. Ou a frustração de perder uma vaga de um trabalho desejado. Ninguém morre ou fica louco com esse aprendizado, mesmo se, no princípio, o sofrimento tenha sido muito agudo e desestabilizante. Mas quando o sofrimento é muito forte, pode surgir, sim, a sensação que inclui o medo de enlouquecer, principalmente quando são muitos acontecimentos juntos.

“Em seis meses, tive um diagnóstico de câncer de mama, perdi meu pai e irmão, o casamento foi desfeito e eu não tinha mais onde morar. Pensei que ia ficar louca”, diz a psicoterapeuta paulista Aline Arruda. O sofrimento foi tão intenso, que Aline decidiu soltar as rédeas. Aceitou tudo. E rendeu-se ao fato de que não podia controlar a existência. “Foi um alívio. Vi que o meu real sofrimento era porque eu desejava que tudo permanecesse como era. Quando decidi ver tudo de camarote, e perceber que a música da vida tocava outro ritmo para mim, tudo ficou mais leve. Mas levou algum tempo para que tudo se reorganizasse”.

Soltar as rédeas, deixar a vida tomar a frente, pode ser muito bom mesmo. É saber tirar o esparadrapo do apego emocional com sabedoria. Dessa forma, ele se desprende sozinho, sem dor. Todo sofrimento, como o medo de enlouquecer, oferece-nos de bandeja uma maneira mais saudável de ser e de nos relacionar com o mundo. Aceite esse precioso presente.

O medo de não pertencer

O terceiro medo é o de não pertencer, de ser excluído, abandonado. Esse é um panorama muito dolorido mesmo, quem já foi traído sabe. “Ele se estabelece no império das imagens: quem eu acho que sou, quem eu acho que os outros são, e minha adequação com relação a isso”, explica a psicóloga Sandra Taiar. O pavor real, nesse caso, é que, após uma experiência insatisfatória, não seja mais possível voltar a ser feliz, pois fatalmente seremos excluídos ou rejeitados de novo.

Em outras palavras, temos medo de que não conseguiremos encontrar outro trabalho, pessoa ou relacionamento que nos dê satisfação e que, se por acaso isso acontecer, não conseguiremos mantê-lo. É uma falta de confiança que pode conduzir a uma sensação de fracasso e à depressão ou, então, à fúria.  Prova-se também um sentimento amargo de humilhação.

“Se quando a gente estiver passando no auge desse furacão alguém disser que isso passa, que a vida é impermanente e que lá na frente a coisa toda pode mudar, essa pessoa corre o risco de levar uma panelada na cabeça”, conta, rindo, a operadora de sistemas mineira Ângela Maria Magalhães, que já passou por isso e teve vontade de jogar o objeto mais próximo das suas mãos em um amigo que queria colocar panos quentes em sua raiva depois de uma dolorosa traição.

Mas a verdade é que tudo passa mesmo. Mais uma vez vai ser preciso remover a cola do apego do que se experimentou e conectar os pedaços com o ouro que inclui outra forma de viver e, principalmente, de se relacionar. “A vida não é carrasca. Ela é sábia, generosa e criativa. Quando chegam essas experiências tristes, é porque temos de aprender algo com elas. No meu caso, foi não ser tão possessiva e começar a viver de forma mais independente e criativa. Tinha esquecido como é tão gostoso, prazeroso, levar a existência dessa forma”, diz Ângela.

O eixo vertical

Vimos várias formas de ouro líquido que nos auxiliam a recompor a vida e remover a cola do apego: a esperança, a integridade que dá coragem apesar do medo, pedir ajuda quando é preciso, ir além dos próprios limites, a certeza de que a vida é generosa e criativa, a sabedoria em abdicar do controle. Elas podem ser acessadas no plano horizontal, no mundo. Mas existe um outro tipo de ouro que chega vindo de nossa relação com o plano vertical, ou espiritual. Porque, no auge da dor, a alma pede forças.

Na maior parte das vezes, o sofrimento inclui a redescoberta de um relacionamento com uma realidade invisível e espiritual que está em nosso coração. A vulnerabilidade e a fragilidade nos conduzirão a esse encontro. Essa união com nossa parte espiritual pode se manifestar de muitas maneiras, mas, em todas elas, vai propiciar o amor e a compaixão pelos outros, a forma mais fácil de encontrar Deus.

“Tem sentido caminhar em frente, sem aprender a caminhar junto com os mais fracos? Um peregrino egoísta não é um bom peregrino”, diz o sacerdote que conduz um grupo de jovens no Caminho de São Santiago de Compostela no documentário Footprints, The Path of Your Life, disponível no Netflix. Há um significado maior que nos espera na estrada da vida e que se revela a cada passo.

“A meta do Caminho não é chegar a Santiago”,  diz Padre Sergio. Mas, sim, aprender lições profundas durante a peregrinação. Conscientes disso, e após muito sofrimento, o grupo liderado pelo padre decide colocar os mais fracos à frente e os mais fortes atrás dando apoio, mesmo que assim não conseguissem chegar ao destino dentro do tempo previsto. “Uma pessoa que está centrada em seu sofrimento, isolada e focada em si mesma, sofre mais do que uma pessoa que tem um ideal que a ajuda a caminhar”, diz o bispo de San Sebastian, a primeira cidade no Caminho de Santiago.

Sofrer não é tudo. Sentir que se tem uma meta e que a vida tem um sentido maior é o principal. “Somente a experiência de nossa própria escuridão nós dá a luz de que precisamos para ajudar os outros cuja jornada para os pontos escuros da vida está apenas começando”, escreveu a monja beneditina Joan Chittister no livro Between the Dark and the Daylight.

“É nesse momento que o pouco que experienciamos da escuridão nos qualifica para sermos algo capaz de iluminar a expedição humana. Sem isso, somos apenas palavras, apenas falsas testemunhas da verdade do que significa ser esmagado no chão e levantar-se outra vez”, diz ela.  O sofrimento que você passa não deve ficar restrito a você. Transformado, ele apenas fundamenta uma experiência que poderá servir para fortalecer outras pessoas. É isso. O sofrimento é só uma pequena parte. O florescimento dele na sua vida é o que mais importa.


Fonte: Vida Simples
Texto: Liane Alves 
Edição: C.S. 

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