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Brasileiros desvendam possível fonte de problemas após cirurgia bariátrica

Cientistas descobrem que parte do estômago isolada por um dos procedimentos fica em condições propícias ao desenvolvimento de um câncer.

09/05/2019 09:55:00 - Postado há 12 dias

Há mais de uma década um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) que se dedica a estudar as cirurgias para tratamento da obesidade se inquietava com uma questão: o que acontece com um órgão que fica escanteado e sem serventia dentro do corpo? Melhor explicando: quando se grampeia o estômago de uma pessoa obesa, numa cirurgia bariátrica, e deixa-se uma parte desse órgão sem uso, como será que ele reage?

Depois de anos investigando o assunto, os especialistas do time do professor Dan Waitzberg publicaram, na prestigiosa revista científica Nature, as conclusões inéditas a que chegaram. Eles identificaram que o órgão abandonado, longe de ficar no maior marasmo, abriga uma intensa atividade lá dentro. Só que uma atividade nada bem-vinda para o organismo: o ambiente ali torna-se potencialmente propício ao surgimento de um câncer.

A descoberta, e a descrição pioneira de como isso acontece, foi feita a partir da avaliação minuciosa de 20 mulheres submetidas ao by-pass gástrico, a cirurgia mais utilizada no tratamento da obesidade hoje. As voluntárias passaram por um tipo especial de endoscopia (exame que averigua o estado do estômago) acompanhados de biópsias, antes e depois do procedimento. As alterações descritas foram observadas apenas três meses após a operação.

Entrevistamos três dos 17 autores do estudo: a nutricionista e educadora física Graziela Ravacci, o professor Dan Waitzberg e o endoscopista Robson Ishida, do Serviço de Endoscopia do Hospital das Clínicas de São Paulo, que realizou os complexos exames nos estômagos desativados.

O achado da equipe brasileira no mínimo recomenda a realização de um acompanhamento periódico com um gastroenterologista de confiança.

O estudo de vocês aponta que, após a cirurgia de by-pass gástrico, a parte do estômago que fica fora do processo digestivo (chamada de “estômago excluso”) torna-se um ambiente propício ao surgimento de um câncer. Já é possível saber quanto se aumenta o risco de isso acontecer?

Ainda não. Tem sido observado, ao longo dos anos, o aparecimento de alguns casos de câncer no estômago excluso em pacientes submetidos ao by-pass gástrico. Mas a incidência do problema ainda na?o é conhecida — possivelmente, tanto pela dificuldade de seguir, a longo prazo, as pessoas que se submeteram à cirurgia, quanto pela dificuldade técnica de avaliar o esto?mago excluso. Além disso, pode haver uma eventual neglige?ncia dos sintomas desse tipo de câncer, como na?useas, vo?mitos e emagrecimento.

Dessa forma, os casos de câncer gástrico podem, sim, ter sido subnotificados. E isso ajudaria a explicar, parcialmente, a grande variação no tempo de diagnóstico da doença após a bariátrica: entre três e 22 anos. Mas a maior parte dos tumores relatados após o by-pass foram tratados cirurgicamente, em tempo hábil.

Em 16 das 20 pessoas avaliadas, houve um aumento de processos inflamatórios e a expressão de genes favoráveis ao aparecimento do câncer. Por que isso acontece?

O estômago excluído, após a cirurgia, adquire um formato de bolsa e tomba para baixo. Esse novo formato o deixa suscetível à bile e também a outros fluidos produzidos na porção inicial do intestino, e pode armazenar uma parte deles.

Na verdade, nosso estudo sugere que as mudanças favoráveis ao desenvolvimento do câncer têm início com a falta de alimentos no esto?mago excluso, após a cirurgia bariátrica. Isso pode prejudicar o funcionamento do tecido gástrico e reduzir a formação de substâncias protetoras como o muco, uma barreira natural que controla a entrada de bactérias e as inflamações, deixando as células do estômago mais expostas a agentes agressores.

Nesse ambiente desprotegido, o refluxo intestinal aumenta o pH dessa parte do estômago e provoca a proliferação de bactérias que deveriam ser encontradas somente no intestino. Juntos, o refluxo e as bactérias podem se tornar componentes tóxicos para o estômago excluso, desencadeando processos altamente inflamatórios. A inflamação, por sua vez, produz grandes quantidades de radicais livres, moléculas que causam lesões e mortes de células. Por causa desses danos, a regeneração do tecido é ativada.

Ocorre que nosso estudo identificou que parte desse processo de regeneração foi comandada por genes que não são específicos do estômago. Nós observamos um aumento na expressão de genes específicos do intestino e genes classicamente identificados ao câncer. Isso significa que o estômago excluso está perdendo sua identidade e pode estar se programando para parecer um intestino.

O fator mais preocupante de todas essas alterações é o sistema imune ativar um processo chamado de tolerância imunológica, que abre uma janela para tolerar mutações celulares. Isso é fator determinante para o aparecimento e a instalação do câncer.

Por todas essas razões, nosso estudo denomina o ambiente do estômago excluso de pré-maligno. Em longo prazo, ele pode ser considerado solo fértil para o desenvolvimento do câncer.

O estudo aponta que esse refluxo intestinal já ocorre em pessoas obesas antes mesmo da cirurgia em função do acúmulo de gordura abdominal. O que o by-pass gástrico faz é intensificar o volume desse refluxo. Mas a incidência de câncer de estômago, em pessoas obesas, então já é maior que na população em geral?

Sim. A obesidade aumenta o risco de cerca de 13 tipos de câncer, incluindo o de estômago. A cirurgia bariátrica reduz o risco de tumores associados a alterações hormonais, mas pode aumentar o risco de câncer no intestino grosso. Nosso achado sugere, agora, que existem condições propícias para o eventual desenvolvimento de câncer gástrico no estômago excluso.

As alterações que tornam o estômago excluso um ambiente propício ao câncer foram detectadas apenas três meses após a cirurgia. O que isso significa?

Indica que os casos de câncer já relatados poderiam ter uma relação de causa e efeito com o bypass. Até o nosso estudo ser realizado, os casos de câncer no estômago excluso foram descritos como uma possível coincidência. Nós demonstramos que a cirurgia pode promover uma reprogramação metabólica e genética do estômago excluso que é propícia para o desenvolvimento do câncer. No entanto, fatores que determinam efetivamente se o câncer vai ou não se instalar ainda não são conhecidos.

Isso pode indicar também que as condições para a incidência do câncer se criam rapidamente após a cirurgia?

Sim, é possível que as condições se criem rapidamente. Mas o oposto também é verdadeiro. De maneira geral, o câncer é um processo lento e seu aparecimento depende de várias mutações em genes específicos na célula. Essas mutações podem ocorrer ao longo dos anos ou parar em um determinado momento.

Tudo depende do ambiente em que essas células estão expostas. Quanto mais estressante o ambiente, maiores as chances dessas mutações acontecerem. Se o ambiente estressante for retirado, as chances de desenvolvimento do câncer diminuem na mesma proporção. Por essa razão nosso estudo sugere o acompanhamento periódico do estômago excluso ou mesmo sua retirada.

O estudo de vocês analisou apenas mulheres. Por quê?

Nosso maior público no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP é do sexo feminino. Além disso, para garantir a homogeneidade do estudo e evitar o viés das características biológicas inerentes ao gênero, escolhemos manter apenas mulheres.

É possível saber se o mesmo fenômeno ocorre com os homens ?

Ainda não é possível afirmar, devido à falta de informações na literatura científica. Mais estudos são necessários.

Em termos de implicação prática, os senhores sugerem o monitoramento do estômago excluso após a cirurgia, certo?

O monitoramento do estômago excluso deve ser realizado para diagnosticar condições adversas que possam envolver essa região, como úlcera, gastrite, sangramentos e o próprio câncer. Por isso, é importante o acompanhamento de perto dos pacientes operados por essa técnica por gastroenterologistas.

Como ocorreria na prática esse monitoramento? E a retirada dessa parte do estômago, seria uma opção?

Nosso estudo não está indicando a realização de exame endoscópico e biópsias de forma rotineira para os pacientes operados. A posição anato?mica do esto?mago excluso após a cirurgia torna bastante complexa a avaliação do órgão com exames de imagem e biópsia. Com a endoscopia convencional é muito difícil conseguir alcançá-lo.

Atualmente, com o surgimento da enteroscopia de duplo-bala?o (EDB), um exame de endoscopia mais especializado, e? possi?vel, a depender da habilidade e experiência do médico endoscopista, avaliar o esto?mago excluso apo?s o by-pass. A Unidade de Endoscopia Digestiva do Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da USP é um centro de referência mundial no desenvolvimento da EDB. Essa premissa nos possibilitou a obtenc?a?o de biópsias para as análises.

Portanto, considerando toda a dificuldade de acesso ao estômago excluso e ao ambiente pré-maligno que ele abriga, nosso estudo também convida os cirurgiões para discutirem a real importância de manter o estômago excluso após o by-pass gástrico. Especialistas de diferentes países com altas taxas de câncer gástrico, como Japão, Coreia e Chile, têm sugerido a retirada do estômago excluso como parte da cirurgia de by-pass.

 

 


Fonte: Saúde
Edição: F.C.

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