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Roma ou a beleza das memórias em preto e branco

Filme levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e é um dos favoritos ao Oscar 2019.

26/12/2018 08:24:00

No nosso mundo rápido e instantâneo, em que todas as coisas vêm sendo consumidas sem demora e são produzidas para que logo se esqueça delas, “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, é um convite à apreciação. O filme, que tem produção da Netflix e já está disponível no streaming, é todo em preto e branco e impressiona pela beleza da fotografia, assinada pelo próprio Cuarón, que também escreveu, montou e dirigiu o filme.

A primeira cena, que traz um chão de pedra sendo lavado por sugestivas ondas, dá o tom de toda a narrativa cuja história é o cotidiano de uma família de classe média da Cidade do México vista pelos olhos da personagem Cleo, empregada e babá que testemunha as dores e alegrias desse núcleo.

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Yalitza Aparicio deu vida à Cleo de Alfonso Cuarón

Inspirada em Libo Rodríguez, que trabalhou na casa da família de Cuarón, a película traduz-se como uma homenagem do cineasta a essa mulher que se mostrava fundamental na organização da casa e nas relações de afeto entre seus membros, relações em que o amor se misturava às diferenças de classe, mas não era definido e nem superado por elas .

Para quem acompanha o diretor, que tem no seu lastro filmes como Gravidade (2013), Filhos da Esperança (2006), Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004), Roma se destaca por ser uma narrativa muito pessoal que, ainda assim, visibiliza os conflitos sociais do México da década de 1970.

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Manifestação de estudantes evidencia conflitos sociais da época 

Como em todo filme, muitos aspectos merecem destaque, porém, o que salta aos olhos são as imagens em seu apuro estético, não só pelo uso do preto e branco que lembra o cinema clássico, mas pelos planos abertos em que a casa, a rua, o cinema, o hospital, as locações em geral, são mostradas,  demoradamente, em sua amplitude, o que cria um diálogo do espectador com o próprio ambiente.

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                       Planos amplos e apuro estético marcam cenas do filme

É bom esclarecer que o título da obra não é uma referência direta à cidade italiana, pois, aqui, Roma remete ao nome do bairro onde Cuarón morou na Cidade do México. Mas, sem dúvida, a escolha sugere a influência do neorrealismo italiano do cineasta Roberto Rossellini, também afeito à crítica social e ao p&b.

Dessa forma, o apreciador de um cinema autoral encontrará em Roma a possibilidade de fruir uma produção contemporânea com toques e requintes de outro tempo. E não é só a força da memória de Cuarón que cria essa atmosfera, o próprio ritmo do filme e sua condução nos levam a sentir o tempo tecendo a si mesmo.  

Roma

Direção: Alfonso Cuarón 

Elenco: Yalitza Aparcio, Marina de Tavira, Nancy García.

Gênero: Drama

Nacionalidades: México, EUA

Duração: 2h15min

Classificação: 14 anos

C.S.   

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