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Publicado em: 17/05/2006

Recém-formados pensam duas vezes antes de seguir a especialização que já foi a mais cobiçada no passado

Profissionais da saúde já constataram: os jovens formados em Medicina estão desistindo de ser pediatras. É um fenômeno novo, pouquíssimo estudado, mas de efeitos devastadores se nada for feito para reverter o quadro. Se hoje sobram vagas para a especialização em pediatria, num futuro próximo vão faltar médicos que cuidem das crianças e dos adolescentes.

Nos hospitais e postos de atendimento das periferias, esse tipo de profissional começa a rarear. Quem pode, opta por trabalhar em clínicas particulares, mal remunerado pelos planos de saúde. E quem não tem escolha enfrenta nos plantões a ira de pais desesperados por seus filhos. Em outras palavras: a situação tende a piorar.

A pediatria só é a ponta mais visível da distorção do exercício da medicina no Brasil. Baixos salários, muito trabalho, má distribuição deles pelo País, desestímulo para se especializarem. A soma de fatores ajuda a entender os números por trás do fenômeno. No ranking nacional dos últimos cinco anos, foram oferecidas 5.518 residências médicas de primeiro ano em pediatria, mas preenchidas 4.034. A taxa de ocupação em todas as residências pediátricas foi de 72,8% - em clínica médica, o índice foi de 92,1%, e de cirurgia plástica, 88%.

Quando um universitário se forma em Medicina, ele tem alguns caminhos a seguir. Um dos mais almejados é a residência médica. Num período de dois a cinco anos, ele se especializa em áreas como pediatria, oncologia, oftalmologia, neurocirurgia e obstetrícia, entre outras. Nessa fase, mais que um estágio intensivo, o jovem trabalha num hospital e lida com casos práticos que vão lapidar sua formação. Sem isso, ele não passa de um generalista, que aprendeu tudo nos livros da faculdade e treinou nos bonecos plásticos ou nos cadáveres doados para experimentação.

O diretor da Faculdade de Medicina da Unoeste, Fernando Pimentel, tem percebido a dificuldade da prefeitura de Presidente Prudente. Lê com freqüência manchetes nos jornais locais: "População revoltada com falta de médicos" ou "Posto municipal sem pediatras". Pelas dez vagas abertas neste ano para essa especialização no Hospital Universitário, só quatro recém-formados se interessaram.

"A situação está se tornando caótica. Em breve, clínicos vão atender pediatria, mas eles só sabem fazer o bê-á-bá." Há poucos meses, numa reunião no Conselho Regional de Medicina paulista, Pimentel quis chamar atenção para o problema: "Alguém aqui teria coragem de entregar o seu filho com suspeita de meningite para um recém-formado da USP?". Na sala com quase 20 colegas também diretores de escolas médicas, ninguém respondeu.

DISPARIDADE

O alarme faz sentido. Das prováveis causas que têm afugentado os jovens médicos da pediatria, nenhuma parece reversível num curto prazo. A principal é a baixa remuneração. Um pediatra, depois de estudar seis anos e ter no mínimo 5 mil horas de treinamento, ganha pouco mais de R$ 2 mil. Então ele entra numa sala de parto e descobre, estupefato, que recebe R$ 20 por cirurgia ante os R$ 110 de um obstetra. E se sente menos médico que outros médicos.

"Há um paradoxo: o estudante demonstra muito interesse por pediatria nas faculdades, mas na hora de decidir a especialização opta por outras áreas", diz Maria do Patrocínio Tenório Nunes, da USP e representante da Associação Brasileira de Escolas Médicas na Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). Ela arrisca dizer que os jovens estão preferindo as carreiras com maior potencial de salário, ou seja, aqueles que prevêem procedimentos nas consultas. São elas endocrinologia, dermatologia e cirurgia plástica, entre outros modismos da profissão. "Eles estão de olho na vida futura."

Neste ano, houve 8,73 candidatos para cada vaga disputada na pediatria do Hospital das Clínicas (HC). Em dermatologia foram 50 interessados por vaga e em clínica médica, 12,2. Depois de um ano de residência médica, Enna Cristina Liu, de 26 anos, desistiu de fazer pediatria. No HC, descobriu que sua vocação não devia ser aquela. Afinal, quem gosta da área não pode se importar tanto com os cansativos plantões, o desgaste no contato com os pacientes, a tensão na UTI, os megacuidados do berçário.

Formada pela Universidade de São Paulo, ela recomeçou em outra área, a de medicina da família. Pensa em fazer nova residência, mas por enquanto atua como médica de uma unidade básica de saúde no Ipiranga, com trabalho de 40 horas semanais e salário de R$ 4 mil. "Quero ter tempo para estudar, viajar, ficar com os amigos, ir à igreja. Na residência médica tive de abrir mão de muita coisa."

Até os anos 90, pediatria figurou algumas vezes entre a mais cobiçada das especialidades, quando havia uma prevalência de homens. Com o aumento expressivo de mulheres estudando Medicina, a área pediátrica sofreu uma feminização. Paralelamente, o mercado saturou-se. Hoje são 36 mil pediatras no Brasil, um para cada 1.900 brasileiros de 0 a 19 anos - quase o dobro do necessário, segundo a Organização Mundial da Saúde. E assim veio o declínio da especialidade. Só restam os devotados.

"Antes havia poucas especialidades, hoje é o que não falta", diz a pediatra Vera Lucia Bezerra, da Universidade de Brasília e ex-secretária-executiva da CNRM. Interessado em ganhar mais, trabalhando menos, o jovem procura subespecializações. "Vejo que ele gosta de áreas relacionadas a máquinas, às novidades." Atrás de uma máquina, seguramente não há um pai ou uma mãe cobrando a cura de seu filho.

Fonte: http://www.planosdesaude.net/


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