Publicado em: 03/10/2011
Psicologia: Existe favoritismo dentro de sua casa?
O advogado paulista Sérgio L., de 52 anos, é viúvo há três anos e assumiu sozinho a tarefa de criar os quatro filhos menores. O quinto, com 26 anos, já mora sozinho. O desafio de Lisboa é educar os adolescentes entre 12 e 18 anos. Ele ainda precisa lidar com a ciumeira inevitável entre os quatro irmãos em casa, três meninas e um menino. O motivo da discórdia costuma ser a adolescente Betina, de 16 anos. Ela é boa de conversa e usa essa característica para ajudar na resolução de conflitos familiares. Na última confusão, convenceu o pai a deixar a irmã mais velha, Isabela, de 18 anos, a estender o tempo de permanência do namorado em casa. “Não sabia o que fazer, recorri ao bom-senso dela”, afirma Lisboa. Ironicamente, a habilidade de relacionamento de Betina, que causa tanta admiração no pai, provoca irritação nos irmãos. “Eles acham que ela tem privilégios por causa disso, mas não é verdade”, diz Lisboa. “Eles são diferentes, gosto de cada de um jeito.”
Quem tem irmãos certamente já ouviu a mesma declaração do pai ou da mãe – ou de ambos. Não foi diferente com o jornalista americano Jeffrey Kluger, editor da revista Time. Ele diz ter sido preterido pelo pai, que gostava mais do irmão mais velho, e pela mãe, que defendia o mais novo. “Eles sempre negaram. Foi uma tentativa de me poupar da dor de ser o último da fila”, diz.
Kluger tornou explícito seu rancor há pouco menos de três semanas, quando lançou nos Estados Unidos o livro The sibling effect: what the bonds among brothers and sisters reveal about us (algo como O efeito fraternal: o que as relações entre filhos revelam sobre nós). Kluger transformou seu ressentimento em vontade de entender as origens psicológicas e biológicas do fenômeno. Foi procurar em estudos científicos a explicação para sua dúvida: o amor incondicional tem preferências?
A conclusão do livro pode trazer certo alívio para quem pensava que predileção na própria família era apenas impressão. O trabalho de Kluger sugere que esse favoritismo é mais comum do que as famílias assumem. A lição não é nova. A história e a mitologia estão repletas de casos de querela fraternal. Zeus, o deus dos deuses na mitologia grega, sempre deixou clara sua preferência por Atena. Na Bíblia, os gêmeos Esaú e Jacó brigaram porque Jacó recebeu bênçãos maiores do pai.
Na história recente, a disputa entre dois irmãos mudou a história do Brasil. O empresário alagoano Pedro Collor acusou de corrupção o irmão Fernando, presidente do país entre 1990 e 1992. Oculta na motivação da denúncia estava a mágoa de Pedro porque Fernando teria se negado a ajudá-lo a fundar um jornal. Pedro também achava que Fernando era o preferido de seus pais. O escândalo político terminou com o impeachment de Fernando Collor.
Nos últimos anos, a ciência começou a tentar medir e a entender os conflitos entre irmãos. Mas, como notou a escritora americana Lisa Belkin, o próprio Kluger, que promoveu seu livro na revista Time, citou poucas pesquisas relevantes. Um dos estudos mais completos sobre o assunto foi feito durante três anos pela socióloga americana Katherine Conger, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Davis. Ela entrevistou a família de 384 pares de irmãos. A conclusão pode despertar a ira dos primogênitos, que muitas vezes se queixam de um tratamento preferencial dispensado aos caçulas. Katherine constatou que 65% das mães e 70% dos pais que assumiram ter um preferido optaram pelo filho mais velho.
A psicóloga americana Katherine Salmon, professora da Universidade de Redlands, na Califórnia, encontrou em seus estudos, assim como outros pesquisadores, a predileção pelo sexo oposto: o pai pela filha mais nova e a mãe pelo filho mais velho. E a recíproca é verdadeira: o menino tende a se aproximar mais da mãe e a menina do pai, algo que o criador da psicanálise, Sigmund Freud, já definira como “complexo de Édipo”.
Esse tipo de comportamento não é exclusivamente humano. Já foi observado em outras espécies. Os biólogos registram, entre animais, casos de predileção cruel pelo filhote mais bonito, forte e saudável. Isso seria um resquício do processo natural de evolução. Os pinguins tendem a chutar para fora do ninho o ovo menor. Da mesma forma, os pais tendem a favorecer os filhotes mais bonitos porque a estética seria um indicador de saúde. Quanto mais saudável o filhote, maior a probabilidade de ele procriar e propagar seus genes. “Mesmo entre nós, humanos, a busca por um filho que perpetue a espécie é algo a considerar”, diz a psicóloga Susan Newman, membro da Associação Americana de Psicologia e autora de 15 livros sobre as relações entre pais e filhos
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O administrador de empresas Guilherme M., de 28 anos, assume ter sido o xodó da mãe. No posto de filho mais velho, foi eleito o companheiro da mãe em viagens internacionais. Era também o que mais ganhava presentes. Quando a mãe ia ao mercado, só ele tinha o direito de escolher guloseimas. “Ela saía comigo e meu pai saía com meus irmãos”, afirma. Moliterni acredita que a predileção tenha prejudicado a relação dele com o pai e os irmãos mais novos. “Até hoje tenho certa dificuldade de me aproximar deles”, diz. “Ficou uma mágoa.” Apesar da tensão familiar, o assunto nunca veio à tona, ficou apenas no plano das insinuações e indiretas.
As consequências são mais severas entre os preteridos. “Essa criança pode assumir uma postura antissocial, substituir irmãos por amigos e criar conflitos para chamar a atenção”, afirma o psicólogo Mauro Godoy, de São Paulo. Às vezes, a mágoa com os pais não é amainada nem com o passar dos anos. A técnica de enfermagem carioca Carla Andriele Diniz, de 24 anos, era o único bebê da família até a chegada de Daiana, um ano e dez meses mais nova. “Minhas primeiras lembranças da vida são de rejeição”, afirma.
Carla conta que foi precocemente alçada à função de irmã mais velha, responsável pela caçula. “Tudo o que acontecia, era culpa minha. E, mesmo que descobrissem que ela era a culpada, eu arcava com a responsabilidade por ser quem devia estar tomando conta.” Carla diz não ter consciência do tamanho das sequelas deixadas pela preferência dos pais pela irmã. Diz que, para não correr o risco de reproduzir a atitude dos pais, decidiu ter apenas um filho.
Mesmo que alguma predileção seja inevitável, é possível ao menos atenuar seus efeitos em casa. O primeiro passo é não esconder de si mesmo que ela existe. A partir desse ponto, o importante é se manter vigilante para evitar que a atenção dedicada aos filhos não seja muito desigual. A tarefa de assumir a predileção não é fácil porque viola um tabu da relação familiar: a igualdade. “Assim como os cidadãos são iguais perante a lei, os filhos deveriam ser iguais perante um pai ou uma mãe”, diz a socióloga Ingrid Connidis, da Universidade de Western Ontário. Mas, na vida real, é preciso aceitar as diferenças e entendê-las. “Não se ama menos. Ama-se diferente”, escreve a psicoterapeuta americana Ellen Libby. Ou, pelo menos, se tenta.
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Fonte: Época
Edição: F.C.
03.10.2011
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