Publicado em: 12/11/2007
O papel dos pais na formação de pequenos leitores
Essa história se passou há muito, muito tempo, numa terra distante. Um jovem casal divertia-se com as peripécias de sua adorada filha. Menina sapeca, ela cresceu forte e feliz: adorava subir em árvores, pular amarelinha e pintar. Dedicados, os pais se preocupavam em oferecer à herdeira o que havia de melhor: educação de primeira linha, aulas de piano e lições de boas maneiras.
Eles também davam conselhos. “Ler é fundamental”, ensinava o pai. Tão ciosos eram de sua responsabilidade que instituíram na casa o horário da leitura. Todas as manhãs, hovesse ou fizesse um sol de rachar, fosse dia útil ou fim de semana, houvesse visita ou não, a menina devia parar tudo o que estava fazendo para ler os livros que os pais haviam selecionado. No começo a garota até gostava de algumas histórias. Com o tempo, cansou. Passou a achar que aquilo era tarefa das mais difíceis. Um dia, ficou sabendo pelas amigas da escola sobre um livro novo e pediu aos pais. Eles disseram que primeiro ela deveria ler os clássicos. A menina, então, desistiu. “Ler é muito chato, isso sim”.
Parece história inventada – e isso ela é mesmo (ainda bem!) –, mas cenas semelhantes também ocorrem nos dias de hoje. Os pais, preocupados com que seus filhos se tornem bons profissionais e homens de sucesso, encafifados com essa tal “sociedade competitiva do mundo moderno”, temem que, no futuro, as suas crianças fiquem para trás.
Por isso, com a melhor das intenções, gastam a saliva, falando sobre a importância da leitura, e as economias, em livros que consideram importantes para a formação das crianças. Outros, mais suscetíveis ao chororô dos pequenos, enchem a estante com livros sem graça de personagens dos desenhos da TV. Todos, sem exceção, querem que seus filhos gostem de ler, tenham apreço e cuidado com os livros, amem a literatura. Querem que eles desenvolvam o chamado hábito de leitura. “Hábito de leitura? Deus me livre!”, diz o educador, psicanalista e teólogo Rubem Alves, autor de mais de 40 livros para adultos e mais de 30 para crianças. “Não deve haver hábito de leitura, como não deve haver o hábito de dar beijos. Beijos e leitura só são bons quando resultam do gostar. A questão não é criar o hábito. É ensinar a gostar”.
E como se ensina isso? Quem tem filhos pequenos sabe o quanto as crianças ficam encantadas ao ouvir uma boa história. A professora de educação infantil Fátima Totti criou até um ritual para a hora da leitura diária nas classes de maternal nas quais leciona. “É um momento mágico, quase sagrado. Eu acendo uma vela, canto uma música e as crianças vão se sentando na roda. Quando pego a vela, a postura deles já muda. E a cada dia eu conto a história de um jeito. Outro dia, usei um jogo de canetinhas para representar A Bela Adormecida. Um ou outro dizia: mas isso é uma caneta! E eu falava, mas imagina que essa é a rainha. Eles prestam atenção, ficam fascinados com a história”, diz ela.
Fanny Abramovich, pedagoga e escritora com mais de um milhão de exemplares vendidos, não esquece os passeios que fazia aos sábados com a mãe pela região da Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, quando ainda era uma menina. As duas percorriam as grandes livrarias da época: Francesa, Saraiva, Parthenon, Teixeira. “A grande parada literária era na Brasiliense, a grande taquicardia era entrar lá”, diz ela. “Minha mãe não me explicava nada, simplesmente saía comigo. E na minha casa todo mundo lia. Nunca ouvi falar de pais e mães que lêem e filhos que não lêem.” Como diz Rubem Alves, “a primeira coisa, fundamental, sem a qual nada acontece, é que pais e professores devem amar a literatura. Se eles não amarem a literatura, como poderão ensinar filhos e alunos a amá-la”?
Liberdade para escolher
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| Quadrinhos também podem ser um ponto de partida |
Ora, ora, não é preciso ler Guerra e Paz aos 9 anos para se tornar um adulto de boa formação. Cada um tem seu gosto. E há muitos caminhos que levam uma criança a gostar de ler. A escritora e ilustradora Eva Furnari, autora, entre outros, de Felpo Filva, premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e pelo Jabuti, lembra um dos grandes feitos do fenômeno Harry Potter. “Essa vivência de ler um livro de 300, 400, 500 páginas é importante”, diz. “É mentira dizer que ler é fácil. Ler exige uma coisa que hoje as crianças têm menos: a quietude. A leitura exige concentração e esforço de entendimento”.
Por que não, então, deixar que a criança experimente? “Dar liberdade à escolha dos filhos é fundamental”, diz o escritor e ilustrador Fernando Vilela, que acaba de ganhar o Prêmio Jabuti de melhor livro infantil com Lampião & Lancelote. Isso significa que os pais não devem participar da escolha de um livro infantil? Longe disso.
“O adulto precisa retomar o seu papel de orientador ou a criança vai escolher apenas aquelas coisas que viu na TV. É um erro ceder à birra da criança”, alerta Eva. Aos adultos cabe apresentar à criança uma literatura de qualidade, adequada à sua faixa etária. Se a criança escolhe um livro que ainda não é para a sua idade, vale até ler um pouco para que ela perceba, sozinha, que há outros títulos mais divertidos. Mas não há problema algum em deixar que a criança leia o que gosta. É isso o que fará com que ela queira ler. “O trabalho é atiçar, deixar a criança curiosa”, diz Fanny. “Minha mãe tem mais ou menos o mesmo gosto que eu. Quando ela indica os livros, eu, em geral, acabo gostando”, diz Matyas Laszlo Abeling Szabo, 11 anos, sobre a mãe, a produtora editorial e tradutora Claudia.
Livro de Presente
Há uma confusão, bastante comum, em relação aos tipos de livros infantis. As escolas costumam usar a literatura como ferramenta pedagógica. “Crianças de 3 anos têm medos e há muitos livros bacanas que tratam desses temas. É uma forma de sanar a curiosidade delas”, explica a professora Fátima.
Eva Furnari também defende a existência de “livros utilitários” para crianças. Deve ter de tudo, ela diz, mas lembra: “Criança gosta de uma boa história e não de auto-ajuda ou conselhos disfarçados”. Há quem seja radicalmente contra. Fanny Abramovich tem arrepios quando encontra fichas pedagógicas nos livros que escreve. Rasga todas. Ela explica: “Meu texto literário não foi feito como pretexto pra ensinar inutilidades escolares como rios amazônicos, a função da partícula ‘que’, os advérbios de modo, as datas da Inconfidência Mineira, o significado da
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| Monteiro Lobato continua atual |
Só se sabe que um livro é bom quando o lemos. “Se o livro mexer com você, se provocar sua curiosidade e suas emoções, deve ser bom para a criança”, diz Rubem Alves. E há maravilhosos livros infantis. Só de brasileiros, a lista é interminável: Monteiro Lobato (que sai agora pela Globo com novas e bem cuidadas edições), Lygia Bojunga, Sylvia Orthof, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Tatiana Belinky, Cecília Meireles, Bartolomeu Campos de Queirós, Ricardo Azevedo, Ziraldo, Mario Quintana, Lalau e Laurabeatriz... E os ilustradores como Mariana Massarani? E os contos de Andersen? E os irmãos Grimm? E as divertidas histórias da Babette Cole?
O importante é aproximar as crianças dos livros, deixar que elas folheiem, imaginem. Nas duas escolas particulares em que a professora Fátima trabalha, os livros têm sido presentes constantes nas festas de aniversário de 2 e 3 anos. Aos pais cabe permitir que as crianças se deliciem com todas essas histórias fantásticas, sem grandes preocupações. Até porque, como todos já sabem, elas entram por uma porta e saem por outra. E quem quiser que conte outra...
Fonte: Revista da Cultura
Edição: Clarissa Poty
12.11.2007
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