Publicado em: 16/11/2007
Planejar o amanhã é uma questão de sobrevivência e evolução
A rotina do representante comercial de peças e acessórios automotivos, de São Paulo, Antônio Tadeu Freire, de 56 anos, não será totalmente alterada daqui a quatro anos, quando irá se aposentar. Continuará no mesmo ramo de vendas, ofício paralelo que realiza há mais de 20 anos. "Pretendo continuar com a atividade e clientes que tenho. Faz 10 anos que sou representante comercial, mas comecei com venda autônoma e continuei na função mesmo depois de conseguir emprego", conta.
Tadeu Freire é um dos exemplos do novo perfil do pré-aposentado. Uma pesquisa realizada pelo banco HSBC em 21 países com pessoas de 40 a 79 anos, sendo 1.001 entrevistados no Brasil, apontou que 71% das pessoas gostariam de trabalhar até quando se sentissem aptas para isso. O estudo mostrou também outro lado relevante: 48% dos pré-aposentados e 60% dos pós-aposentados não têm receio de ter que lidar com uma nova situação financeira.
Com o aumento da expectativa de vida, a rotatividade de cargos e a saída mais precoce do mercado de trabalho, a nova geração de aposentados busca alternativas de potencializar know-how, consolidar contatos, disseminar experiência. Isso por meio de cursos de especialização para melhorar sua renda, realizando trabalhos como consultores e assessores ou na abertura de um negócio, até mesmo no voluntariado, levando em conta o que pode lhe proporcionar satisfação.
Entretanto, todos esses fatores esbarram em um critério muitas vezes esquecido: o planejamento antecipado, feito antes mesmo de entrar para a aposentadoria. "A carreira é o nosso negócio e devemos ser os responsáveis pela sua gestão. O indivíduo deve se preparar nos seguintes pilares: finanças, saúde física e emocional, e no novo projeto de vida; em que atividades remuneradas ou não possa ter", explica Karin Parodi, sócia diretora de Career Center, consultoria de carreira em São Paulo.
Um dos passos para desenhar a possível segunda carreira seria o diagnóstico das condições em que o trabalhador está sobre cada um desses pilares para colocar em prática o projeto desejado.
Na cabeça e no Bolso
"Preciso ou não de renda e consequentemente continuar trabalhando com remuneração? Quais as minhas competências e meus pontos fortes? Qual o meu perfil, personalidade, interesses, valores e motivações? O conjunto dessas informações e a pesquisa detalhada de mercado irão guiar o profissional para o sucesso na nova etapa de vida", aponta a consultora.
Tadeu Freire segue essa cartilha, arquitetando como ficará seu rendimento no decorrer de sua vida profissional, em que foi gerente de vendas numa empresa de cursos de idiomas e motorista particular. "O rendimento do aposentado cai muito e você tem que estar preparado para isto, porque chega uma hora em que fica difícil conseguir trabalho. Vejo colegas meus que já se aposentaram e ficam sem saber o que fazer, como administrar o dinheiro com as despesas da casa. Sente-se na cabeça e no bolso", comenta.
Para Cecília Cibella Shibuya, diretora da Prática Consultoria Empresarial e vice-presidente de Eventos e relações Institucionais da Associação Brasileira da Qualidade de Vida - ABQV, o profissional precisa adaptar-se, sem traumas ou conflitos, aos desafios que surgem. "É necessário se informar, por meio de palestras, seminários, leituras específicas e mudar o estilo de vida, envolvendo a família nesta fase que está por vir ou que já está vivenciando.
É interessante, também, fazer uma reserva, evitando usar a verba da aposentadoria no orçamento mensal, participar de um fundo de previdência privada, para que não tenha uma queda brusca na situação econômica".
O aspecto psicológico é outra questão preponderante na decisão de "pendurar" ou não as "chuteiras". Dilemas como a perda da identidade institucional e o próprio despreparo em relação à condição de aposentado, por muitas vezes rotulado como o fim de uma etapa produtiva, geram doenças como a depressão e outros transtornos.
"O indivíduo tem que compreender e saber lidar com as emoções que um processo de mudança provoca. O mais importante é cuidar da auto-estima, para que tenha menor impacto nesse rito de passagem da carreira. É primordial implementar o novo projeto de vida com antecedência", diz Karin Parodi.
Antes que seja tarde
Pensando em todas essas transformações que atingem cargos e indivíduos, empresas no Brasil e no mundo também adotaram o Programa de Preparação para Aposentadoria - PPA com o objetivo de que executivos já tracem um rumo na pós-carreira. Segundo as consultoras, a média de implantação do PPA fica em torno de dois a cinco anos antes de o funcionário aposentar-se.
Cecília Shibuya enfatiza que deve ser respeitada a cultura da empresa que solicita essa ação, seus objetivos e metas, além de verificar as formas de adesão ao PPA, que inclui palestras, workshops, dinâmicas individuais e em equipe. "Dentro de nossa vivência (como consultora na área) entendemos que o programa que o programa divide-se em três fases: sensibilização, desenvolvimento e manutenção.
São inseridas atividades que não só identificam o perfil do grupo e suas expectativas, como também trabalham aspectos que contribuem para o equilíbrio pós-carreira. Nessas etapas, é feito um acompanhamento sistemático no que se refere à elaboração do projeto de vida, trabalhando mudanças e problemas. As empresas já entenderam que este programa é uma forte estratégia de negócios, pois reflete diretamente na valorização por parte dos colaboradores em relação à empresa e na performance corporativa", ilustra.
Independentemente do cargo que exerça ou se a empresa adota ou não uma política de estímulo aos colaboradores em refletir sobre o futuro, o fato é que raciocinar sobre o amanhã não é mais tarefa de visionários. E sim, uma questão de sobrevivência, em especial num período em que se informar - e evoluir - é tão rápido quanto se desatualizar.
Portanto, por que deixar para depois se pode pensar em crescer desde já?
Fonte: Revista Medicina Social/Keli Vasconcelos
Edição: F.C.
16.11.2007
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