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Publicado em: 18/05/2007

Opinião sobre a vinda do Papa e a discussão sobre o aborto

No dia em que eles descerem os morros do Rio, famintos e desnorteados, como soldados abandonados por seus generais, eles tomarão conta da cidade, da zona sul, e as classes médias e ricas serão prisioneiras de suas próprias avarezas e descuidos com os mais pobres. Será como um exército de centuriões romanos, de olhos arregalados, famélicos, entorpecidos e  desesperados, tentando a última conquista antes da morte!”. (Mario Henrique Simonsen, em 1986) Joseph Ratzinger - ou Bento XVI, como queiram - é o pastor que recolhe as ovelhas perdidas.

O chefe de Estado do Vaticano e líder da Igreja Católica visita o Brasil. O mote da estada concentrou-se na abertura da 5ª Conferência Geral do episcopado Latino-Americano e do Caribe e a canonização de Frei Galvão, mas a visita se transformou em mega evento e o Papa num “pop star”. Não se tem dúvida de que o prelado está emocionado e estupefato ante o que lhe está sendo mostrado, ainda que homem de profundos conhecimentos e acostumado à diplomacia que envolve suas visitas oficiais. A distinção do povo brasileiro com os povos do mundo sempre será a alegria, o entusiasmo e a afetividade.

Divulgam-se notícias dos custos gerados para engalanar a estadia do pontífice com supérfluos e exageros inclusive segundo altas patentes da Igreja de Roma que se posicionaram contra o que entenderam como desperdício. Salvo entendimentos pessoais, a Igreja Católica sempre foi faustosa e rica. Apenas em seus primórdios apresentou-se financeiramente escassa. O próprio Vaticano é um Estado opulento. Mas há que se dizer que a Igreja se tornou poderosa com as contribuições de seus seguidores, ainda que no distante passado sob a forma das infames indulgências.

Quanto aos valores do cálice sagrado usado na canonização de Frei Galvão girar em torno de R$3.500,00 e um vinho a ser consumido pelo Papa no valor de R$ 350,00, é discutível, pois outras autoridades já beberam vinhos quinze vezes esse valor e nem por isso a população deixou de bem lhes querer e depositar credibilidade. Bento XVI - queiramos ou não - é um líder mundial.

Seu pronunciamento aos jovens se torna importante na medida em que representa uma imagem decente e uma fala de fé quando a indecência e a desesperança têm sido como máquina demolidora de princípios e esperanças para aqueles que estão formando caráter e personalidade. Por paradoxal que seja é significativo que fale em castidade seja ela a do corpo ou do espírito. A sociedade tem experimentado evolução negativa em alguns comportamentos exagerados que produz. Portanto, um pouco de pureza fará bem a todos.

Com referência ao aborto, matéria que entrou em discussão em todos os segmentos, a Igreja tem sua posição em favor da vida. O Estado, por sua vez, não pode olhar o problema pelo lado da fé porque sua visão não deve se adstringir a um único foco. O aborto significa matar. Anualmente temos centenas de mortes provocadas por esse ato.

Mortes ocultas, sem qualquer denúncia e que muitas e muitas vezes ceifam junto a mulher em razão da clandestinidade com que provoca a expulsão do embrião ou do feto. Ao desamparo fica a prole, quando existente, aumentando a desordem social dos menos aquinhoados financeiramente.

A questão é descriminalizar o ato tirando-o da esfera penal porque as mulheres que possuem poder aquisitivo relativo ou mais expressivo não morrem ao praticar seu aborto. Quem vai ao óbito ou a seqüelas às vezes irreversíveis são aquelas outras, as desprotegidas de recursos e conhecimento, que se utilizam de métodos vendidos em qualquer esquina ou de alguns até cruéis praticados por pessoas sem qualquer qualificação para agirem nesse campo.

Quanto à questão moral dessa prática, cada qual responda por ela em sua introspecção pessoal, eis que há inúmeras possibilidades de se evitar uma gravidez não desejada.


* Sandra Silva - professora e socióloga no RS, articulista política de diversos jornais e publicações eletrônicas.


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