Publicado em: 16/02/2011
Meu filho ainda molha a cama durante o sono
Nos primeiros anos de vida as crianças descobrem que podem controlar o esfíncter urinário e até o quinto ano de vida completa-se o amadurecimento neurofisiológico da bexiga. Entretanto 15 a 20% das crianças nesta faixa etária ainda molham a cama a noite, mostrando-nos que isto não é nada tão fora do comum.
Sabemos que a cura ocorre de forma espontânea com o tempo, onde 10% dos pacientes melhoram por ano, mas muitas vezes a cura pode demorar e a longa espera pode trazer transtornos a criança. Algumas guardam isto como verdadeiros segredos dos demais colegas com medo de serem ridicularizadas, outras não raramente são punidas pelo ato de urinar na cama, por seus pais acreditarem tratar-se de uma ato voluntário, de birra ou não vontade de levantar para ir ao banheiro. Aqui devemos reforçar que não se pode punir estas crianças, pois isto não é um ato voluntário.
Os mecanismos para explicar a enurese noturna são diversos. Comumente, estas crianças apresentam um sono mais pesado, com despertar difícil durante o sono, a produção de urina a noite encontra-se aumentada e apresentam uma bexiga de menor volume. Sabe-se, também, que o fator hereditário está presente e que filhos de pais enuréticos possuem maior probabilidade de terem enurese.
Os fatores psicológicos e/ou psiquiátricos que no passado acreditava-se poderiam serem causas, hoje sabemos que habitualmente não estão relacionados como fatores desencadeadores e mais comumente como consequências. Naquelas situações onde a criança não era enurética previamente, ou que há pelo menos seis meses não apresentava enurese noturna, um fator psicológico pode estar envolvido. Os transtornos de auto-estima e incapacidade gerados pela enurese noturna na criança podem levar aos transtornos psicológicos.
Mas se a doença apresenta uma taxa de resolução espontânea, qual a criança que merece ser tratada? O tratamento pode-se mostrar útil em todas, mas principalmente naquela criança que se mostra mais incomodada com o fato de urinar na cama e a família estimulada a participar do tratamento. Há aquelas situações mais graves, onde a frequência é quase que diária e que além dos transtornos familiares, ainda há as trocas diárias de lençol e frequente necessidade de trocar o colchão. A impossibilidade de dormir fora de casa sem evitar o constrangimento de urinar a cama alheia costuma ser um motivo para procura de tratamento.
Quando identificado o problema pelos pais ou pediatra, o acompanhamento pelo urologista pediatrico é fundamental. O tratamento da enurese, muitas vezes, pode ser demorado, estressante para a família e um acompanhamento especializado é aconselhado. Em momento algum, as crianças com enurese devem ser punidas ou humilhadas pelo ato de fazer xixi na cama.
Diversas opções de tratamento já foram tentadas e o tratamento da enurese muitas vezes se constitue de uma modalidade de tratamento multifatorial, as vezes multiprofissional e principalmente de participação e paciência dos pais e demais membros da família.
A terapia deve ser baseada nos fatores que contribuem para a enurese noturna:
1. Modificações de dietas que possam estar influenciando na continência noturna, como evitar a ingestão de frutas ácidas, pimentas e alimentos picantes antes de dormir.
2. Programa de esvaziamento regular intestinal com modificação dietética e se necessário uso de laxativos orais ou enemas.
3. Terapia de modificação comportamental.
4. Alarme: aparelho que objetiva despertar a crianças quando o aparelho entra em contato com a urina. Apresenta bons resultados de cura, porém com inconveniente de as vezes despertar toda família, menos o paciente.
5. Medicações: As medicações utilizadas para o tratamento consistem da desmopressina, um análogo sintético do hormônio diurético, a imipramina, um antidepressivo tricíclico e a oxibutinina.
Essas substâncias produzem uma taxa de cura de 40 a 80%, contudo a taxa de recorrência dos sintomas gira em torno de 50% dos casos.
A paciência dos pais e apoio de toda a família é fundamental para o tratamento com sucesso da enurese noturna e o tratamento pode evitar transtornos sociais, psicológicos a criança enquanto se aguarda a cura espontânea. Algumas crianças podem também apresentar perdas urinárias diurnase uma avaliação adequada deve ser realizada para esclarecer o diagnóstico e orientar o tratamento.
Dr. Eulalio Damazio, é urologista pediátrico do Hospital São Marcos e MedImagem em Teresina.
eulaliodamazio@hotmail.com
Edição: A.N.
16/02/2011
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