Publicado em: 29/01/2008
Máscaras
Exerciam verdadeiro fascínio sobre mim e os outros meninos daquele tempo. Confeccionadas de forma tosca, em cartolina branca, com “lentes” de papel celofane colorida, recebiam aleatórios borrões de tinta, distribuídos pela sua superfície como a natureza o fez, na pele da onça pintada. Vocês nem podem imaginar como as máscaras, conduzidas por seus vendedores, penduradas em enormes cabides de buriti enfeitavam a cidade feito alegorias vivas, dançando sopradas em sua leveza pelos poucos ventos da pequena Teresina. Além dos vendedores ambulantes espalhados por todas as ruas, tal quais os pedintes de hoje em dia, as máscaras tinham na calçada do CLUBE DOS DIÁRIOS, uma espécie de QG, onde dividiam o espaço com os lança-perfumes, chapéus, fitas, apitos, rolos de serpentina, sacos de confete e outras bugigangas carnavalescas.
Nas semanas que precediam a festa propriamente dita, as pessoas já respiravam o carnaval. Adultos e crianças pensavam suas fantasias; os blocos de clube envolvidos em frenéticas disputas ensaiavam uma barulhenta algazarra em endereços dispersos, e as marchinhas antigas se revezavam com novas canções de ritmo “pulante” e letras gostosamente jocosas, nas programações das duas únicas emissoras de rádio (lembra Deoclécio?).
E tinha o Corso. Ah, o Corso! Ele intermediava a alegria infantil e pré-adolescente dos bailes matinais com a desenvoltura etílica e etérea dos adultos, que invadiam as madrugadas nos clubes, com impressionante vigor físico e tolerância hepática.
Lá no corso, nós e nossas máscaras, a irreverência infanto-juvenil, os olhares pecaminosos em direção ao caminhão das raparigas, cheio de mulheres, ditas da vida, com abundante oferta de sonhos para prazeres futuros. Que carnavais!
Mal sabiam as máscaras, coitadas, que como o próprio carnaval, o seu círculo de beleza e glamour provinciano se encerraria na quarta-feira, junto com a alegria foliã de toda uma cidade, que finalmente dormiria em silêncio.
Nos tempos de hoje, o uso da máscara tem sido prerrogativa de incontáveis adultos que relutam em retirá-las, ao longo de suas vidas desprovidas de graça e da autêntica alegria.
Poncion Rodrigues
29.01.008
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