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Publicado em: 06/11/2006

Fanáticos por televisão

Nossa última enquete (Quantas horas por dia seu filho vê televisão ? ) mostrou um resultado surpreendente: os pais responderam que 65% dentre seus filhos vêem televisão durante mais de 3 horas por dia. Isso significa que 2 em cada 3 crianças e adolescentes são fanáticos que passam mais de 3 horas por dia em estado de completa imobilidade, a olhar para a televisão.

Pode-se, então, dizer que a TV é o aparato que domina o universo simbólico dos que têm idade até 17 anos.

Que tipo de consumo cultural tal realidade determina para esta moçada?

Para onde estão indo as formas “antigas” de convívio que as gerações anteriores adotavam: os amigos, os irmãos, as brincadeiras de rua, a prática de esportes, os trabalhos manuais, o repouso, a leitura?

Qual o impacto comportamental que a absorção de tal hábito coletivo irá causar nestas crianças e adolescentes, quando se tornarem adultos?

Quando se procura visualizar de modo atento os conteúdos veiculados pelos programas de TV , algumas reflexões podem ser elaboradas:

- O elemento dominante no universo cultural televisivo é a violência: nos noticiários, nos desenhos animados e nos filmes o grande fio condutor dos relatos e dos enredos é a agressão física, com a resolução dos conflitos se fazendo através da ação individual, com muitas armas de fogo, espadas, carros velozes, naves e super-heróis  hiper-agressivos. Estes valores são assimilados de forma visceral, e automaticamente adotados como modelos de conduta, por mentes vulnerabilizadas pela completa ausência de contra-pontos críticos. É possível supor que na vida adulta estas crianças adotarão tais modelos comportamentais na busca de solução para seus conflitos e desafios; e aceitarão com naturalidade e apatia a solução dos problemas (individuais ou coletivos) pela violência.

- A completa ausência de atividades físicas conseqüente à  imobilidade corporal imposta pela prática de ver TV cobra um preço biológico preocupante, pois a tendência natural é de que estas crianças desenvolvam obesidade, alterações visuais e distúrbios psíquicos, tais como ansiedade, agressividade, apatia, distúrbios do sono, déficit de aprendizado, etc.

- Em sua essência, a TV é uma ferramenta comercial, e seus financiadores precisam obter retorno de seus investimentos através do consumo dos produtos que anunciam, na maioria das vezes de maneira sutil, incorporando o impulso de compra à narrativa da trama ou da notícia. Assim, a idéia do consumo como indutor de felicidade precisa, pela lógica que move tais engrenagens, fazer parte dos valores culturais desta criança, que passa a medir sua “felicidade” e seu valor social pela capacidade familiar de lhe aportar a posse dos signos exteriores de sucesso.

- Ao assimilar de modo automático os padrões institucionalizados de linguagem, vestuário, consumo cultural e convívio social assimilados da TV a criança tende a se tornar um adulto sem capacidade de desenvolver qualquer reflexão crítica individual. A partir daí ela seguirá as duas vertentes que lhe restam: 1. o crescente isolamento individualista do homem urbano moderno; ou 2. a auto-entrega às novas religiões midiáticas, que prometem a redenção pela submissão.

- Por último, a erotização explícita e o culto à beleza estética que permeiam anúncios comerciais, novelas, filmes e noticiários da TV impõem a todos o mesmo mantra: “sem beleza e sexo, a vida é sem nexo !” Não é difícil perceber o potencial de frustração auto-alimentada contida nesta nova cultura.

E não adiantam saudosismos: as coisas não irão retornar ao bucolismo do passado. Pelo contrário, esta maré é montante, a TV é para sempre, e quem não souber resistir se afogará nas profundezas da fantasia, atraído pelos encantos da atraente sereia. Aliás, está dito lá, no nome do famoso programa: fantástico é, dizem os dicionários, aquilo que existe só na imaginação; o contrário do real.      

Assim, senhoras e senhores, façam suas apostas: quantas horas por dia vocês e seus filhos passam, mesmo, olhando para a TV, para o avesso da verdade?

J.C
Edição: P.J./A.C.L
06.11.06


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