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Publicado em: 07/04/2008

ET LA NAVE VÁ

Londres: Cidade Global

Nunca a humanidade viu uma mudança tão radical e tão rápida como a que estamos assistindo agora: a fuga das pessoas para as cidades!

Há vinte anos a maioria das pessoas vivia no campo, hoje mais da metade já está nas cidades. E dentro de mais vinte anos só duas em cada 10 pessoas estarão no campo. Portanto, o caos está anunciado! E seus efeitos poderão ser devastadores, sobretudo para os países pobres. E o Brasil é um deles.

Os maiores desafios serão: desemprego, violência, exclusão social, assistência médica, esgotos e lixos, transportes e expansão urbana.

A conversa fiada de que empresas privadas, organizações não governamentais e movimentos de mobilização de pessoas (através de "pontes entre ricos e pobres") poderão assumir os desafios, encontrando soluções, tem vida curta.

Ou os governos começam a encarar de frente o tsunami, ou a situação ficará insustentável. E o desafio envolve também os países ricos, pois do contrário não conseguirão levantar muralhas contra as invasões bárbaras que se anunciam.

Os países do primeiro mundo vêm implementando, com relativo sucesso, projetos de "cidades globais". O que são "cidades globais"? São centros urbanos gigantescos, com milhões de habitantes, bem integradas ao mundo, dotadas de sistemas ágeis de tráfego aéreo, com transportes urbanos fluídos, rede telefônica eficiente e cuidados sanitários abrangentes, apresentando expansão urbana planejada e violência urbana sob controle. São cidades que funcionam 24 horas, nada pára! É o caso de Toronto, Nova Iorque, Londres, Paris.

Cidade Letal: tráfego urbano é caótico
Cidade Letal: tráfego urbano é caótico

Já no Terceiro Mundo, estamos assistindo ao crescimento de "cidades letais", nas quais o tráfego urbano é caótico, os aeroportos não funcionam, a telefonia e energia elétrica funcionam de modo irregular, a expansão urbana se faz, sobretudo, sob a forma de favelas, os sistemas de tratamento de lixo e de esgotos são ineficientes, a violência penetrou fundo no tecido social e as doenças epidêmicas (meningites, dengue, hepatites, leptospirose, infecções respiratórias) fugiram do controle.

Numa sociedade moderna, em princípio o poder público intervém para proteger os cidadãos de várias agressões que, em sua ausência, as forças econômicas deixadas ao livre impulso propiciariam. Entre elas estão a ocupação desordenada dos espaços urbanos, a comercialização de produtos adulterados ou contaminados, a oferta de trabalho em condições perigosas (através de "contratos de desespero") e a violência interpessoal  disseminada.

Os objetivos da administração pública decorrem do reconhecimento de que a sociedade como um todo precisa garantir-se quanto a determinados mínimos comuns - disponibilidade de água potável, organização da ocupação do espaço urbano e do tráfego de veículos, controle da violência, vacinação e prevenção de enfermidades epidêmicas, dentre outros.

Quando deixadas a si próprios, as forças de mercado e os impulsos de vantagem individual dos diversos atores sociais produzem resultados intoleráveis, com progressivas e ameaçadoras mudanças nos valores sociais.

Favela no Rio de Janeiro
Favela no Rio de Janeiro

Uma sociedade em que algumas pessoas podem ter condições de adquirir a segurança de beber água mineral engarrafada, enquanto os pobres pegam disenteria através de alimentos contaminados por esgotos a céu aberto, vai mal. Uma sociedade em que a violência destrói toda a possibilidade de mínimo acordo social, com os ricos blindando-se em carros, casas e guarda-costas de segurança máxima, e os pobres matando-se uns aos outros, vai mal. Uma sociedade em que vendedores ambulantes, mendigos e traficantes ocupam ruas, praças e passeios públicos sem encontrarem qualquer reação dos gestores públicos;  e em que o tráfego de veículos individuais e coletivos se faz de modo anárquico, sem despertar qualquer iniciativa dos planejadores de políticas urbanas, está caminhando para um abismo de ingovernabilidade.

Ou a cidade será um espaço pertencido por todos, ou será um espaço pertencido por ninguém, tornando-se um campo de guerra! É difícil acreditar que as forças econômicas mescladas aos impulsos dos diversos atores urbanos, liberados para responderem aos seus desejos mais elementares de lucro e vantagem individual imediata, não resultarão em cidades cada vez mais feias, tristes e ameaçadoras. A única força capaz de modificar tal destino está na esfera da administração pública: educando, controlando, regulando, penalizando, financiando.

Mas há escolas de pensamento econômico, com muita influência nesta banda ocidental do planeta, pregando que as forças do mercado tudo equalizam, e que pesquisadores, planejadores de políticas públicas, autoridades sanitárias, legisladores trabalhistas e políticos com inclinações humanitárias não possuem a necessária capacidade de intervenção regulatória sobre o cada vez mais complexo e dinâmico jogo das forças sociais e econômicas. Segundo tais analistas, adeptos do "laissez-faire" ("deixa-para-lá"), a humanidade sempre foi e será capaz de superar os desafios aos quais se impôs, e que a seleção natural se encarregará de tudo.Segundo tais oráculos, tudo está à venda: engalfinhem-se todos, uns contra os outros - dizem eles - que no final as coisas se ajustam!

Há também a escola místico-religiosa, que a cada dia conquista mais adeptos: não vos inquieteis, pois Cristo vela por nós, dizem seus pensadores. Este calvário ao qual estamos sendo submetidos é só uma prova; oremos enquanto caminhamos serenos em direção ao paraíso.

Uma coisa é certa - este nosso mundão é um todo coerente, e não uma soma de partes separadas: uma borboleta bate asas em Shangai, e causa uma tempestade em Wall Street. Portanto, fiquemos atentos.

Et la nave vá. Arrivederci, presto.

José Cerqueira Dantas


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