Artigos

Tamanho da fonte: a- A+

Publicado em: 19/06/2008

Escritores à beira do copo

Faulkner, Nobel de Literatura, viveu cercado pela bebida

A história me foi contada pela grande Lygia Fagundes Telles. Certa vez veio a São Paulo o lendário escritor e Nobel de Literatura William Faulkner, que passou alguns dias na capital paulista – sempre bêbado. Tão bêbado que sequer sabia onde estava. Houve um momento em que nem sequer voltou para Lygia e perguntou, perplexo: “Mas o que estou fazendo aqui em Chicago?”.

William Faulkner não foi, infelizmente, um caso excepcional. Os escritores conhecidos por sua dependência do álcool são legião. Para ficar com exemplos de autores de língua inglesa, como Faulkner, temos, entre aqueles chegados a um copo, os nomes de Edgar Allan Poe, Jack London, Eugene O’Neill, Sinclair Lewis, Dashiell Hammett, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Steinbeck, John Cheever, Allen Tate, Caroline Gordon, Ring Lardner, Dorothy Parker, Robert Lowell, O. Henry, Conrad Aiken, Jonh Berryman, Edmund Wilson.

Dos sete americanos que receberam o Nobel de Literatura, cinco (Sinclair, Lewis, Eugene O’Neill, William Faulkner, Ernest Hemingway e John Steinbeck) tinham problemas de alcoolismo. Nancy J. Andreasen, psiquiatra da Universidade de Iowa ( que regularmente recebe escritores visitantes), encontrou uma prevalência de 30% de alcoolismo entre escritores contra 7% entre não-escritores. Nos Estados Unidos, o grupo que tem mais cirrose do fígado em conseqüência do álcool são os bartenders, o segundo grupo é o dos escritores. Escritores que bebem têm, nos Estados Unidos, expectativa de vida de 65 anos, contra 76 anos para os que não bebem.

Estamos falando dos Estados Unidos, mas o problema é universal, claro. Aqui no Brasil tivemos numerosos casos, mas vamos ficar só com dois exemplos famosos: Lima Barreto, que foi internado várias vezes por problemas ligados ao álcool, e Vinicius de Moraes, que sempre precisava de uma garrafa de uísque por perto. Fonte de inspiração? Negativo. Estudo realizado por Ernest Noble, do Centro de Pesquisas em Álcool da Universidade da Califórnia, mostrou que alcoolistas são menos criativos que os abstêmios.

E é preciso mencionar as doenças causadas pelo alcoolismo, os acidentes, os homicídios e suicídios, estes muito freqüentes em escritores. A história de Eugene O’Neill mostra como deixar o álcool melhora a situação da pessoa: suas melhores peças foram escritas quando ele se tornou abstêmio. Jack London só se permitia beber depois de ter escrito no mínimo mil palavras. Eram abstêmios Nathaniel Hawthorne, Mark Twain, Mary McCarthy, Upton Sinclar, Emily Dickinson, Henry Thoreau, Zane Gray, Ralph Waldo Emerson, Willa Cather, James Michener, Lillian Hellman, Tom Wolfe e Flannery O’Connor, entre outros.

Por que os escritores bebem?  São várias as hipóteses. Em primeiro lugar, escritores estão sujeitos aos mesmos riscos que outras pessoas e podem ter predisposição genética para o álcool. E depois temos a atividade literária em si. É possível que escritores e artistas em geral bebam porque é isso o que se espera deles, que sejam diferentes e recorram ao copo. Ou pode sr que bebam por causa da solidão: escrever é um vício solitário. Ou por causa da ansiedade que surge quando não se consegue escrever. De qualquer modo, o preço a pagar é pesado. Alguém já disse que, ao artista, o álcool pode dar asas, mas rouba-lhe o céu. E aí, todo vôo, inclusive o vôo da imaginação, é inútil.

Por Moacyr Sciliar – médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras

Fonte: Revista Mente&Cérebro
Edição: Clarissa Poty
19.06.2008


[x] Fechar






[x] Fechar





Comentários

    Nenhum Comentário Cadastrado.

Rir é o Remédio