Artigos

Tamanho da fonte: a- A+

Publicado em: 30/09/2004

Conto aborda estereotipo do funcionario publico.

A repartição pública funciona naquele prédio velho e sujo. Seus habitantes, todos funcionários públicos, confundiam-se com as velhas paredes e com as teias de aranha que ali afloravam. Mas, a vida seguia seu curso e a mesmice já havia engolfado o prédio e seu recheio há muito tempo. Foi aí que, em uma dessas mudanças que ocorrem em todo início de novo governo, assumiu a chefia da repartição um novo chefe. Entrou, analisou, e cismou com o local; ou, para ser mais específico, com o clima do local. Como o prédio não tinha ar-condicionado, eram utilizados aqueles ventiladores de teto, a maioria caindo aos pedaços. Ele tanto fez, tanto reuniu-se com o governador, tanto chorou miséria, que conseguiu recursos  para instalação de um sistema de refrigeração central. Foi aquele acontecimento! Todos os barnabés felizes e ansiosos pela mudança. A letargia usual substituiu a euforia (quer dizer, ao invés de todos ficaram letárgicos e inoperantes, passaram a ficar eufóricos e inoperantes, o que, convenhamos, já é alguma coisa) e todos aguardavam ansiosos o dia da inauguração do complexo. O dia chegou, o sistema foi ligado, e nada! O clima continuou quente, sem a mínima frescura que fosse. Foram chamados técnicos especializados que, após detalhada análise, culparam a estrutura do prédio, com sua sujeira secular. Fizeram uma limpeza geral nos dutos e nos forros e, após mais uma semana de espera, o ar foi ligado normalmente.

 

O problema é que, juntamente com o ar fresco, veio na tubulação um gás de odor insuportável, lembrando cheiro de bosta fresca. Os técnicos disseram que isso era em decorrência dos infindáveis anos de acúmulo de pó e outras substâncias, mas que, com o tempo, o cheiro iria sumir. No começo, o gás provocou algumas reações mais comuns, como dores de cabeça e náuseas. Mas todos  agüentaram  firme: era um sacrifício válido, em prol de um clima alpino. O problema é que, com o tempo, embora o cheiro não incomodasse mais, o gás continuava produzir seus efeitos. Alguns funcionários adquiriram rinite, outro passaram a ter queda de cabelo, outros ainda adquiriram problemas de visão. Correu até o boato que um dos funcionários do protocolo tinha ficado impotente, o que provocou uma onda de terror entre os demais. O chefe teve que fazer uma reunião e levar um médico, que atestou que a impotência era problema somente dele, não do gás. Acalmaram-se um pouco os murmúrios, mas estavam todos muito desconfiados.

 

Foi então que a coisa agravou-se e seu Silva, um funcionário antigo do setor de limpeza, teve um testículo acrescido à sua dupla. Mais uma semana, outro triovóide e, em um mês, já eram sete com três quibas. Na ala feminina, a Carlusa, uma estagiária, teve um seio nascido bem no meio das costas, o que valeu uma gracinha de um dos analistas de sistema do segundo andar, que por sinal foi um dos beneficiados com um testículo a mais: “Agora vai dar gosto abraçar a Carlusa. Não vejo a hora de chegar o aniversário dela”. Não obstante a gracinha, o estado de espírito no prédio era péssimo, ainda mais porque o governo, preocupado com o problema, instituiu quarentena e impediu todos de deixarem o prédio. O prédio, para revolta de todos, foi cercado por forças policiais. Ninguém entrava e ninguém saía. O único contato com o meio exterior era o telefonema diário que o governador dava ao chefe do órgão, para sondar a quantas iam os sintomas.

 

Com dois meses de isolamento, as esperanças eram mínimas. Já havia pessoas cegas, com visão de raios x, com capacidades telepáticas, com 64 dentes e até uma senhora que adquiriu uma outra vagina, tendo sido apelidada de Dona Flor, talvez em uma alusão ao fato de ela poder comportar dois maridos ao mesmo tempo no seu regado. O governo, embora preocupado, manteve a quarentena, na esperança de que os sintomas fossem passageiros. Até que um dia veio à gota d’água. O chefe ligou desesperado para o governador e disse que dois funcionários tinham amanhecido manifestando desejo de trabalhar. No outro dia, o número subiu para 8 funcionários com ânsias de trabalho. Nesta hora, neste exato momento, o governador perdeu todas as esperanças. Ligou para o presidente, narrou todo o fato e principalmente o último acontecimento: funcionários públicos com mania de trabalho. Então, em acordo com o presidente, o governador mandou explodir o prédio, com todos dentro, afinal, a situação tinha fugido do controle.       


 

 

Saiba um pouco mais sobre o autor

 

Histórias, lendas e até piadas sobre o funcionalismo público fazem parte do universo que inspira o escritor Sérgio Idelano Alves Matos, autor do conto O GÁS, que faz parte do seu livro “Uns Tantos de Contos e uma Crônica No Reino do Funcionalismo Público" (2004).

 

Percorrendo as muitas facetas que envolvem o estereótipo do funcionário público, o poeta, contista e romancista Sérgio Idelano brinca com os conceitos e situações desse tipo de atividade profissional, que é tida por muitos como inerte e, por esta mesma razão, se torna motivo de piadas e brincadeiras.

 

Em 2004, "O Gás", foi classificado em 1° lugar no Concurso Permínio Asfora de Literatura, ganhando o Prêmio Paulo Veras de Conto/Crônica. Este mesmo conto foi selecionado, através do XIII Concurso Internacional Literário de Outono, para participar de uma coletânea de contos a ser lançado pela AG editora, em São Paulo.

 

Dados literários

Extraído do Dicionário Bibliográfico de Autores Piauienses, do escritor Adrião Neto

 

MATOS, Sérgio Idelano Alves - n. 11-07-1968-Teresina (PI).

Filho de Humberto dos Santos Matos e Sílvia Maria Alves Matos. Poeta, contista e romancista. Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal do Piauí, em 1991. Pós-Graduado em Controle Externo. Após trabalhar algum tempo na Secretaria de Agricultura do Estado do Piauí, logrou aprovação no concurso do Banco do Brasil, sendo transferido para a cidade de Curimatá, onde trabalhou 2 anos. Findo este período, foi aprovado no concurso para Auditor Fiscal do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, onde permanece até hoje. Em 2003, com o romance "Socó dos Morros", foi classificado em primeiro lugar no concurso de romance "Fontes Ibiapina", promovido pela Fundação Cultural do Piauí. Em 2004, com o conto "O Gás", foi classificado em 1° lugar no Concurso Permínio Asfora de Literatura, ganhando o Prêmio Paulo Veras de Conto/Crônica. Este mesmo conto foi selecionado, através do XIII Concurso Internacional Literário de Outono, para participar de uma coletânea de contos a ser lançado pela AG editora, em São Paulo.

Bibliografia

"Frutos da Árvore da Vida",’Causos’ e Contos, volume I e II; "Janelas da Alma"(Poemas);"Engenho de Quimeras (Poemas); "Uns Tantos de Contos e uma Crônica No Reino do Funcionalismo Público" (2004) e  "Socó dos Morros - A História de Uma Tese" (romance). Com os poemas "Solidão", "Um Olhar..." e "Bolhas de Sabão" participou de uma antologia poética lançada em Itajubá, (MG).Obteve ainda a segunda colocação no "II Concurso Literário do Jornal da Imagem", de São Paulo, através da crônica "Em Off".


[x] Fechar






[x] Fechar





Comentários

    Nenhum Comentário Cadastrado.

Rir é o Remédio