Publicado em: 11/11/2010
Cada um no seu microblog
Grande parte, senão maioria absoluta dos que optam por casas separadas, vem de experiências frustradas. Condenam a intimidade pelo fracasso anterior e então eliminam a convivência doméstica na tentativa de assegurar o sucesso da próxima tentativa. Mas não deixam de transparecer certo fingimento ao contrariarem o que seria apenas uma convenção cultural, sendo que, de fato, encobrem, por trás de um discurso modernoso e liberal, os traumas dos insucessos anteriores, a preguiça para enfrentar novos obstáculos nupciais, além do medo de novo desengano e sofrimento. Alijam-se dos desafios para viver apenas de sexo, sorvete e chocolate. Se não há convivência doméstica, o que atesta, na prática, a existência do casamento? O rótulo da boca pra fora, sujeito a diferentes interpretações e utilizações? O sentimento e o compromisso de fidelidade inerentes ao mais adolescente namoro de portão? O documento legal? Seu valor jurídico é inegável, mas onde está a coerência de quem não liga para regras e convenções, porém exige a assinatura de um pedaço de papel?
Ganha-se sossego, perde-se a oportunidade. O ser humano progride em relações profundas, seja com o trabalho, família, filhos ou nos envolvimentos afetivo-sexuais. Só no conflito íntimo com personalidades diferentes aprendemos a renunciar ao egoísmo para ceder e fazer pelo outro. Qual o sentido de uma vida onde não é preciso pedir desculpas, admitir defeitos, lutar para corrigi-los, relevar e aceitar o próximo? E o que pode ser melhor que o casamento para nos forçar a isso tudo? Não existe oportunidade maior para o progresso emocional e espiritual do que a intimidade conjugal. É uma dádiva ter alguém para apontar nossos erros, cobrar mudanças, dividir as angústias, vontades, fazer-nos sentir imperfeitos e assim partirmos para as mudanças necessárias. Esta é a grande sacada do casamento: seu maior estorvo conduz ao fio da meada da existência – a evolução.
Ninguém é obrigado a casar para ser feliz e melhorar. Muito menos eternizar uma situação onde não há felicidade e amor. Mas em toda decisão que se toma na vida, a dignidade pede pelo enfrentamento dos problemas, que são proporcionais à grandeza das escolhas. Maior o passo, maiores os obstáculos, maiores os louros. Quer ter filho, crie. Quer ter alguém para segurar suas ondas e te acompanhar na inexorável solidão da velhice? Então more junto. Sofra, emputeça-se, bata na mesa, conte até mil. Mas é provável que o prêmio final subjugue indelevelmente a memória das dificuldades. Optar por casas separadas é como sonhar ter um filho e depois mandá-lo para o colégio interno para que ele apareça limpo e cheiroso todas as férias até virar um adulto responsável e bem-educado. É correr do pau para exercer o egoísmo sem culpa. Eu te amo, te quero por toda a vida, mas não aceito ouvir sua música, dividir o espaço, conciliar horários, aguentar seus maus momentos ou olhar pra sua cara depois da briga. Enquanto estiver tudo azul, a gente fica junto. Se a coisa engrossar, cada um no seu canto. Mas esteja aqui quando eu adoecer. Até lá a gente se vê no Twitter.
Fonte: Bruno Fernandez, jornalista.
Edição: F.P.
11/11/2010
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