Publicado em: 24/08/2011
Proteção contra o Alzheimer
Apesar de sentir certa nostalgia, Clemente Alves, 74 anos, tenta não ceder à saudade dos tempos em que tinha vida social intensa com sua mulher, Thereza, de 72. Fazia com ela muitas viagens, iam a restaurantes, se divertiam. A esposa continua a seu lado, mas não é mais a mesma companheira. Tem sérias falhas de memória, por vezes demora a reconhecê-lo. Em outubro de 2004, Thereza foi diagnosticada como portadora da doença de Alzheimer. Isso mudou a vida do casal. A mulher ativa, que por muitos anos trabalhou como contadora e depois da aposentadoria tinha como hobby o turismo, tornou-se dependente. “No início foi muito difícil”, admite Alves. Com a ajuda das filhas e dos médicos, ele aprendeu a lidar com o problema. “Hoje, quando chego em casa, faço festa para ela, puxo para dançar”, conta. “Não me importo se ela não entende o que estou fazendo.”
A tendência é de que histórias tocantes como a de Thereza e Clemente sejam cada vez mais comuns no Brasil daqui em diante – a doença se manifesta na terceira idade, faixa etária que cresce no País. “Estamos começando a passar pelo que a Europa e os Estados Unidos passaram há 20 anos”, atesta o neurologista Paulo Caramelli, da Universidade Federal de Minas Gerais. Hoje, a estimativa é que 1,2 milhão de pessoas têm Alzheimer no País. Em lugares onde a longevidade há muitos anos está alta, a doença é um tema frequente.
Pesquisa feita com 2.678 adultos dos EUA, da França, Alemanha, Espanha e Polônia pela Escola de Saúde Pública de Harvard e pela instituição Alzheimer Europe revela que a enfermidade é a segunda doença mais temida, citada por 25% dos entrevistados. Ficou atrás somente do câncer.
Os cientistas, no entanto, têm boas notícias: cuidados preventivos podem evitar até 50% das ocorrências e há estudos para a criação de técnicas de diagnóstico cada vez mais precoce. Um dos estudos mais importantes neste aspecto foi realizado na Universidade da Califórnia (EUA) e divulgado recentemente. Os pesquisadores chegaram à lista dos principais fatores de risco para a doença. Basicamente, são os mesmos vilões responsáveis pela maior parte dos casos de outras doenças importantes, como as cardiovasculares: tabagismo, obesidade e sedentarismo entre eles.
A grande diferença está no principal fator de risco. Manter baixa atividade cerebral e possuir baixa escolaridade são as mais fortes ameaças. Para se ter uma ideia, os pesquisadores concluíram que indivíduos em situação oposta a essa – ou seja, estimulados intelectualmente e com alta escolaridade – apresentam 14% menos chance de ter a enfermidade. Na conta final, os cientistas mostraram que evitar os sete fatores de risco citados na pesquisa pode diminuir o número de casos à metade.
O trabalho provou, mais uma vez, a importância de seguir uma rotina de hábitos saudáveis também para a proteção do cérebro. De fato, diversas pesquisas demonstraram, por exemplo, o poder dos exercícios e dos alimentos nessa função. De formas distintas, eles contribuem para o bom funcionamento dos neurônios, as células nervosas que são o alvo de destruição do Alzheimer – a doença causa a sua morte.
Há também avanços consideráveis nas pesquisas que buscam formas de diagnosticar a enfermidade mais precocemente. Este é um objetivo urgente. Atualmente, o diagnóstico é feito a partir de avaliação clínica, testes de memória e exame de ressonância magnética. A ausência de ferramentas mais eficientes acaba muitas vezes atrasando o início do tratamento – o que só piora o prognóstico.
Por isso, há uma corrida da ciência à procura, entre outras coisas, de substâncias específicas que sirvam como marcadores da doença. O nível de concentração de uma determinada proteína, por exemplo, poderia servir como indicação do início da enfermidade.
Outro foco é usar com mais precisão as informações obtidas por exames de imagem. Nesse sentido, cientistas do Rush University Medical Center (EUA)deram um passo importante. Eles concluíram que a análise da anatomia do cérebro permite prever o Alzheimer com uma década de antecedência. Indivíduos com algumas áreas do cérebro mais finas teriam três vezes mais chances de desenvolver a doença. Os cientistas continuam o estudo para tornar o método disponível.
O Alzheimer ainda não tem cura. O que se consegue é retardar sua progressão – daí a urgência em detectá-lo o quanto antes possível. Felizmente, esse foi o caso do aposentado Dilton de Oliveira, 69 anos, que há três anos soube que tinha a doença. Imediatamente, sua mulher, Valdiva Fontenele, o matriculou numa academia de ginástica e ele também foi encaminhado para uma terapia cognitiva (estimula o raciocínio). Desde então, Dilton vive de segunda a sexta entre sessões de alongamento, musculação, hidroginástica e os cuidados de uma terapeuta. “Ainda saímos para ir ao teatro, ao restaurante e passamos os fins de semana numa casa na serra”, diz Valdiva.
Manter-se ativo é uma das premissas para atrasar o avanço da doença. “Mas é comum vermos o inverso: idosos com Alzheimer que passam o dia sentados assistindo à tevê”, lamenta o geriatra André Jaime, do Hospital São Luiz, de São Paulo. “Isso não estimula a atividade cerebral”, diz. Outra abordagem de tratamento é feita com remédios que atuam sobre uma substância cerebral que participa do processo de distribuição dos impulsos nervosos, ajudando a fazer a comunicação entre os neurônios.
Mais recentemente, ganhou destaque nas preocupações dos médicos a necessidade de assistência aos cuidadores, as pessoas responsáveis pelos cuidados aos pacientes. A sobrecarga em relação a elas é um efeito colateral frequente.
Fonte: IstoÉ
Edição: F.C.
24.08.2011
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