Publicado em: 02/06/2010
Princípios para a vida que todos nós devemos seguir
Ray Dalio é enganador, insensível, emocionalmente ignorante, simplista, presunçoso ao extremo, estranho e totalmente equivocado. Palavras duras, mas sei que o fundador de um dos mais bem sucedidos fundos de hedge* do mundo vai recebê-las bem. O presidente da Bridgewater acaba de fazer uma lista de suas 300 regras mais importantes para a vida e a de número 31 é por no papel as fraquezas dos outros.
A número 11 é nunca dizer alguma coisa sobre uma pessoa que você não diria diretamente para ela, enquanto a número 22 é "supere", quando o assunto é lidar com comentários positivos ou negativos. Tudo o que importa na "Daliolândia" é a exatidão ou não.
Essas regras estão no mais curioso documento administrativo com que já me deparei. Simplesmente intitulado "Principles" (Princípios), ele está sendo entregue para os funcionários da Bridgewater com o intuito de ajudá-los a serem tão bem sucedidos quanto seu chefe. Também já está circulando na internet.
Mas ele não é um simples manual. Nele, Dalio passa os três primeiros capítulos expondo sua filosofia de vida, que ele compara a esquiar. É só fazer o que o instrutor manda que tudo dará certo. Ele nos assegura que não se trata de uma "ego trip": "Com o uso crescente (os princípios) evoluirão de 'os princípios do Ray' para 'os nossos princípios' e Ray vai desaparecer."
Mas por enquanto, Ray está em evidência, escrevendo uma obra que em sua ambição me lembra "Ética a Nicômaco" de Aristóteles. Os dois escritores são bastante confiantes e acreditam em princípios que não são dedutíveis, mas descobertos ao serem colocados em prática. A diferença é que o filósofo grego tinha um apetite menor por palavras como "alavancar" e "hierarquia", do que o moderno diretor de fundos de hedge. E ele evitava equações artificiais como Dor + Reflexão = Progresso.
A filosofia de Dalio acaba se mostrando uma versão fanática e fundamentalista do sonho americano. "As pessoas conseguem o que merecem na vida", declara -uma visão reconfortante quando você já fez uma fortuna de cerca de US$ 4 bilhões. Ele também acha que "a quantidade de dinheiro que as pessoas ganham é uma medida aproximada do quanto eles deram à sociedade o que ela queria"- mais uma vez, um pensamento confortador para Ray, embora se eu fosse um professor poderia não concordar.
Ao classificar assim a sociedade, Dalio reflete sobre a natureza do bem e do mal, afirmando que qualquer coisa que estiver afinada com a realidade é o bem. Desse modo, é bom que os gnus sejam comidos pelas ienas porque isso estimula a evolução, explica.
O problema com esse tipo de raciocínio é que ele deixa as pessoas se perguntando se ele já viu de perto não um gnu, mas um ser humano. A maior parte dos humanos evoluídos que conheço odeia ser destrinchado metaforicamente por críticas públicas, assim como os gnus certamente odeiam que isso aconteça com eles na realidade.
Do mesmo modo, os humanos evoluídos gostam de coisas que são ilegais no mundo de Ray. Falar das pessoas pelas costas- que segundo ele é a pior coisa que alguém pode fazer, depois de roubar- é algo vital em qualquer organização, tanto para fins recreativos quanto diplomáticos.
Se Dalio acha que seus subordinados nunca falaram mal dele pelas costas, ele está enganado. Se apenas um deles conseguir eliminar as besteiras filosóficas de "Principles", algumas das regras podem se transformar em uma leitura revigorante. Não há nelas tolices como "talento" e o poder do "nós". Em vez disso, no mundo de Dalio, você contrata pessoas superbrilhantes e as administra de maneira ativa.
Mesmo assim, justo quando estava me sentindo levemente revigorada, me deparei com uma regra que diz aos administradores que pensem em seus subordinados como figurinhas de jogadores de beisebol. Esta regra, mais do que qualquer uma das demais, explica por que "Principles" é um fracasso.
Ray pode ser um investidor brilhante, mas ele ainda é um garotinho em termos emocionais. Para os adultos, administrar não é como colecionar figurinhas de jogadores de beisebol. As pessoas não podem ser trocadas em praças, classificadas de acordo com o número de jogadas bem sucedidas e erros. Elas são misturas complicadas de racionalidade, irracionalidade, emoção, ambição, preguiça, bondade e maldade.
Como que temendo que o mundo de Ray pudesse ser visto como algo que carece de calor humano, o Princípio 114 instrui os administradores a "cuidarem atenciosamente das pessoas que trabalham para você. Tente estar em seus casamentos e funerais". Este é o princípio mais assustador. Estou avisando desde já: qualquer pessoa que me disser, na cara, que sou uma porcaria e me ver como uma figurinha de beisebol, não está convidada para o meu enterro.
* Os fundos de hedge, ou hedge funds, podem ser definidos como fundos que adotam um número de estratégias que não podem ser adotadas por fundos tradicionais de investimento, mas isso não implica necessariamente se são mais ou menos arriscados.
Fonte: Financial Times
Enviada por JC
Edição: F.C.
02.06.2010
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