Publicado em: 15/04/2010
Pessoas tendem a considerar como verdadeiro o que é bonito
A ideia de que a beleza não é apenas aparência ilusória, mas deve servir aos bons propósitos, já era defendida pelo filósofo Platão, na Grécia antiga. Na Idade Média, artistas e eruditos também estavam convencidos de que o que era verdadeiro não poderia ser feio. Na língua portuguesa a proximidade (e a confusão) entre atributos como beleza, correção e bondade já se tornou corriqueira – afinal, quem nunca ouviu um adulto dizer a uma criança algo do tipo: “Que menino bonito, fez tudo certinho!”?
Entre cientistas são comuns os relatos de que a “elegância” de uma teoria lhes fornece um primeiro indício sobre sua correção. Certa vez, o matemático alemão Hermann Weyl (1885-1955) chegou a ponto de sustentar uma hipótese refutada sobre a gravidade apenas porque sua fórmula lhe parecia muito bela. A intuição de Weyl provou-se correta – e seu conceito matemático fundamental teve seu valor reconhecido mais tarde por estudiosos da eletrodinâmica quântica.
Naturalmente, mesmo a mais elegante teoria pode se revelar falsa. A associação entre “belo” e “correto”, portanto, não pode ser tomada como óbvia. Na verdade, ela é uma criação da mente humana.
Em 2004, Rolf Reber publicou, junto com o pesquisador Norbert Schwarz, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, e Piotr Winkielman, da Universidade da Califórnia em San Diego, uma teoria da percepção estética. Segundo ela, considera-se uma obra de arte ou uma peça musical especialmente bela quando é fácil apreciá-la. Psicólogos denominam essa facilidade processing fluency (em português, fluência do processamento).
Isso nos faz pensar que as crianças gostam tanto da música "Nana, nenê" porque ela é extremamente simples e fácil. Quanto mais velha fica uma pessoa, maior o número de músicas mais complexas ela conhece e processa – seguindo em busca de novos desafios. A cantiga de ninar, então, passa a ser “simples demais” para a mente.
A fluência do processamento da percepção estética pode explicar diversas observações que até então causavam dores de cabeça aos pesquisadores. Por exemplo, por que especialistas em música conseguem apreciar também obras complicadas, enquanto o ouvinte mediano tem a tendência de se ater às composições populares e da moda? Ou: por que recém-nascidos têm o mesmo gosto para música –eles têm preferência por séries de tons consonantes, que soem de maneira harmoniosa –, mas os adultos apresentam diferenças relevantes em seus gostos musicais?
Aparentemente, crianças vêm ao mundo com um “equipamento biológico” com o qual conseguem perceber mais facilmente sequências harmônicas de sons do que melodias dissonantes. Só mais tarde conhecem diferentes tipos de música, de acordo com sua cultura e com o ambiente onde crescem. E passam a preferir sons costumeiros a harmonias com as quais não têm nenhuma experiência.
Seguindo essa linha de raciocínio, portanto, o gosto musical individual surgiria pelas diferenças treinadas na fluência do processamento.
FÁCIL E CERTO
A teoria da fluência pode ser aplicada também à investigação dos motivos pelos quais a mente associa beleza à verdade: assim como peças musicais simples são mais apreciadas que as excessivamente complexas, enunciados de fácil processamento tendem a ser considerados os mais corretos.
Em um experimento, Reber e Norbert Schwarz pediram que voluntários avaliassem a veracidade de frases como “Osorno fica no Chile” ou “Lima fica no Peru”. Algumas afirmações estavam escritas com cores pálidas, difíceis de serem vistas diante do fundo branco da tela do computador; outras, em cores fortes, podiam ser reconhecidas sem esforço. Se as sentenças eram facilmente legíveis, ou seja, se podiam ser processadas fluentemente, os participantes tendiam a concordar com elas – independentemente de serem corretas ou não.
Em um estudo, os pesquisadores Jochim Hansen, Alice Dechêne e Michaela Wänke, da Universidade da Basileia, na Suíça, demonstraram que a fluência aumenta a aparente veracidade, principalmente quando o processamento é inesperadamente fácil.
Para tanto, os cientistas utilizaram afirmações cuja correção pode causar dúvidas para a maioria das pessoas, como “pão de nozes é mais saudável do que pão de batata” ou “o vinho branco faz a concentração de suco gástrico aumentar mais do que o vinho tinto”.
Mais uma vez, as frases foram escritas às vezes em cores pálidas, difíceis de serem reconhecidas, outras, com um bom contraste. Se, então, uma afirmação de fácil leitura se seguia a vários enunciados difíceis de serem decifrados, frequentemente era considerada como “verdadeira”. Esse efeito, porém, só ocorreu quando houve uma mudança repentina das frases de má legibilidade para outras de fácil leitura.
Aparentemente, portanto, a fluência de processamento absoluta não é decisiva para a avaliação, mas sim principalmente o fato de a afirmação ser mais facilmente perceptível do que o esperado. Quando ligamos dados em uma rápida "busca" em nossa memória, tendemos a associar idéias próximas, fáceis, que consequentemente para nós parece ser a mais correta.
Fonte: Mente e Cérebro
Edição: F.C.
15.04.2010
Comentários
Últimas: Notícias
- 08/02/2012 - Falta de fio dental pode causar sangramentos e doenças na gengiva
- 07/02/2012 - EUA aumentam financiamento para pesquisas sobre Alzheimer
- 07/02/2012 - Crianças deixadas de lado durante as brincadeiras são mais sedentárias
- 07/02/2012 - Engeplus se consolida na produção de sistemas de gerenciamento hospitalar
- 07/02/2012 - Bebê que come papinha dada com colher fica mais gordo
- 06/02/2012 - Inteligência para viver mais
- 06/02/2012 - A esperança das editoras de livro
- 06/02/2012 - Vinicius Nogueira é destaque na TV piauiense
- 06/02/2012 - Resolução da Anvisa mantém veto a cigarro com sabor e libera açúcar
- 03/02/2012 - Conheça os riscos e benefícios de alguns pratos típicos do Nordeste
- Veja Mais
Notícias Relacionadas:
- 03/02/2012 - Dia Mundial do Câncer tem campanha focada nas redes sociais
- 03/02/2012 - Cérebro de viciado e de seus parentes têm alterações similares
- 02/02/2012 - Manchetes reproduzem exageros sobre leitura da mente
- 23/01/2012 - Fazendo o cérebro crescer
- 02/01/2012 - Como o trabalho muda seu corpo
- 29/12/2011 - Pesquisa relciona mau funcionamento celular à esquizofrenia
- 26/12/2011 - O poder das emoções positivas para a saúde física e mental


