Publicado em: 10/11/2011
Os pediatras estão sumindo?
Como todo médico, o pediatra precisa concentrar em sua prática clínica duas correntes que representam o ideal da medicina: a curativa, que lida com situações emergenciais, e a preventiva. Porém, ele trata de pessoas que ainda não verbalizam seus sintomas – ou os manifestam com dificuldade. Portanto, trata-se de um profissional que deve se empenhar ainda mais para fortalecer a relação com seu paciente, encontrando formas de se comunicar para além das palavras, do diagnóstico e da fisiologia.
A realização plena desse ideal, no entanto, tem enfrentado entraves nos últimos anos. Segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria, 30% dos casos de rotina e 43% dos atendimentos emergenciais de crianças realizados no Brasil não são feitos por um pediatra.
No entanto, estima-se que no Brasil existam cerca de 36 mil pediatras – 18 para cada 100 mil habitantes. O índice é maior que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Por que, então, grande parte das crianças não está sendo atendida por pediatras?
Trata-se de uma situação complexa. Há um fato concreto: embora a média de profissionais disponíveis supere a indicada pela OMS, o número de médicos que se tornam pediatras vem caindo: em 1996, 13,6% dos médicos tinham essa especialidade. Hoje, a taxa de especialistas é de 10%. Na avaliação da Sociedade Brasileira de Pediatria, porém, não haveria necessidade de mais profissionais, já que a taxa de natalidade vem diminuindo progressivamente.
Isolados os números, fica outro aspecto importante da questão. Muitos profissionais estão migrando para outras áreas. Os que atendem na rede pública muitas vezes se desapontam com a falta de políticas voltadas para a criança e para o adolescente.
Contribui também para diminuir o interesse dos jovens médicos pela especialidade a necessidade de estar quase sempre disponível para atender a criança e seus pais. “Hoje ninguém mais quer ser incomodado”, atesta a médica Paula Presti, 26 anos, residente de pediatria da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo. “As pessoas não querem ouvir falar em nada que não seja objetivo. E a prática da pediatria é lidar com angústias, aflições”, considera.
Na instituição paulista, as vagas para a residência (período depois da graduação em medicina no qual o médico aprende uma especialidade) em pediatria foram preenchidas, mas outros locais sofrem dificuldades para encontrar candidatos. “Aqui conseguimos preencher as vagas, mas ainda não estamos em uma situação de conforto”, diz Cláudio Len, chefe de pediatria da escola paulista.
Há ainda uma má distribuição dos pediatras pelo País, com maior concentração desses profissionais nos grandes centros urbanos. Em Pernambuco, por exemplo, a ausência de especialistas é gritante.
“Recebemos aqui no hospital crianças em estado lamentável porque não receberam o tratamento adequado”, explicou a pediatra Jucille Meneses, coordenadora de residência em neonatologia e da UTI neonatal do Hospital Santa Joana, do Recife. “Não há pediatras na hora do parto, não há UTI para recém-nascidos no interior do Brasil e o transporte para as capitais é feito de forma totalmente precária”, denuncia.
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Fonte: IstoÉ
Edição: F.C.
10.11.2011
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