Publicado em: 19/11/2010
Os hospitalistas estão chegando
Médicos que só cuidam de pacientes internados e, ao mesmo tempo, entendem de administração hospitalar. O movimento dos hospitalistas começa a ganhar força no Brasil, após 14 anos de consolidação em hospitais americanos renomados como a Mayo Clinic, o John Hopkins Hospital e instituições da Harvard Medical School.
O modelo é assim: a partir da internação, o hospitalista "assume" o doente. Decide do antibiótico ao tipo de alimento mais apropriado. Passa também a ser o interlocutor com a família do doente e com o plano de saúde.
Ao menos oito hospitais brasileiros -entre eles o Santa Isabel, em Blumenau (SC), o Mãe de Deus, em Porto Alegre (RS), e o Santa Izabel, em Salvador (BA)- já adotaram o modelo. A área ainda não é reconhecida no Brasil.
Para a Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados), o movimento crescerá porque se traduz em melhoria da qualidade assistencial e em maior segurança.
Tempo e Vida
Estudos mostram que, com esses profissionais, houve redução da mortalidade e do tempo de internação. As despesas hospitalares também caíram em até 30%. Hoje, são mais de 20 mil hospitalistas atuando por lá.
"O hospitalista acompanha o paciente o tempo todo dentro do hospital e está familiarizado com tecnologia da informação, pesquisa médica e protocolos clínicos", explica o médico Guilherme Brauner Barcellos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar.
Henrique Salvador, presidente da Anahp, diz que o gerenciamento do risco sempre esteve focado nas unidades críticas (UTIs) e que, agora, passa a ser estendido para pacientes menos graves.
O Hospital Santa Isabel, de Blumenau, incorporou hospitalistas no seu corpo clínico em agosto de 2009 e já colhe frutos, como a redução do tempo de internação (de 10,4 dias para 7,6 dias).
Segundo o médico Roger Rodrigues, no início, houve "ciumeira" dos clínicos por deixar seus doentes aos cuidados dos hospitalistas. Depois, aceitaram a ideia. "É um caminho sem volta."
"Não vamos roubar o lugar do médico do paciente"
James Newman, diretor da Mayo Clinic, é uma referência do movimento de hospitalistas nos EUA. Presidente da Associação Pan-Americana dos Hospitalistas, ele esteve no Brasil, em congresso da especialidade:
- Como está o movimento nos Estados Unidos?
James Newman - Tem crescido muito nos últimos 14 anos. Os hospitais têm se tornado ambientes cada vez mais complexos, com muito sistemas eletrônicos, tecnologias de última geração, e é preciso ter equipes próprias que acompanhem isso. Há 12 anos, na Mayo Clinic, começamos com sete hospitalistas. Hoje, somos 60.
- E quais são os resultados?
Hoje o paciente fica no hospital e seu médico, atendendo no consultório. Ele o visita de manhã e, às vezes, à tarde. Mas são visitas sempre apressadas, eles não têm tempo de explicar ao paciente ou à sua família detalhes da doença ou do tratamento. Os hospitalistas estão disponíveis o tempo todo nos hospitais, e as decisões do médico são mais rápidas. Isso tem impacto na segurança do paciente.
- Não há conflito, já que é o médico do paciente quem mais conhece sua história clínica?
O médico pode conhecer seu paciente há anos, mas, normalmente, não conhece bem o hospital. O hospitalista não rouba o lugar do médico. Ele vem somar, imprimir mais qualidade no atendimento dentro do hospital.
- Hoje, grande parte do cuidado do paciente está nas mãos do corpo de enfermagem...
Sim, mas as enfermeiras continuarão lá. Elas falam com as famílias, fazem várias coisas. Mas não sabem dos detalhes do tratamento, das opções e dos próximos passos. Nosso time é multidisciplinar, todo mundo tem chance de falar o que pensa, fazer propostas. Os médicos não são os donos da verdade.
- O Brasil começa a discutir novos modelos de remuneração. O pagamento por desempenho funciona nos EUA?
Há um grande debate. Se for para melhorar a qualidade, pode ser bom. O motor que move a busca pela qualidade é a competição. Hoje, nos EUA, há uma pressão porque existe um ranking nacional dos melhores hospitais. Há anos, a Mayo sempre tem ficado entre os cinco melhores. Ninguém quer perder a colocação. Todo mundo quer ser o número um.
Fonte: Folha de S. Paulo
Edição: F.C.
19.11.2010
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