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Publicado em: 10/11/2011

O lado perigoso das redes sociais

Era para ser uma viagem inesquecível. Durante quatro meses, Alberto A. planejou com cuidado suas férias na Austrália. Dias antes de embarcar no voo QF18, da Qantas, publicou um post em inglês no Facebook e no Twitter. DJ nas horas vagas, ele pedia ajuda aos amigos e seguidores para se apresentar em festas enquanto estivesse no país. “Queria tocar um pouco de electro misturado com funk carioca, botar as australianas para dançar e sair bem acompanhado”, diz azevedo, 28 anos, mais conhecido nas pistas de dança como Bebeto Le garfs. Com a resposta positiva de um amigo australiano, incluiu um HD com músicas e um fone de ouvido entre as camisetas e meias na mala. sua viagem para a Austrália entrou, sim, para a história, mas por um motivo bem menos nobre. Questionado no departamento de imigração do aeroporto sobre o motivo da visita, azevedo disse que encontraria amigos no país. após uma rápida discussão, ouviu dos agentes: seu Twitter diz outra coisa. Os oficiais vasculharam o perfil de Azevedo na rede de microblogs, leram a troca de mensagens com o amigo australiano e o acusaram de tentar ganhar dinheiro no país. mandado de volta para o Brasil no primeiro avião do dia seguinte, Azevedo conheceu da pior forma o lado perigoso das redes sociais.

Alberto não é a primeira pessoa a enfrentar problemas por causa da sua vida online. São muitas as histórias de gente que terminou um relacionamento, outros que foram processados ou até presos em função de comentários publicados no Twitter e fotos no Facebook. Nos últimos anos, o número de casos aumentou com a mesma velocidade da popularização das redes sociais.

O Facebook caminha para atingir a marca de 700 milhões de usuários. isso significa que um em cada dez habitantes do planeta está conectado ao site de mark Zuckerberg. O Twitter acumula 140 milhões de mensagens ao dia. É como se 75% da população brasileira postasse ao menos um comentário a cada 24 horas.

Com as redes sociais cada vez mais presentes no dia a dia das pessoas, é inevitável que muita gente encontre nelas uma maneira fácil, rápida e abrangente de se manifestar — e daí para se meter numa confusão é um pulo. “Como se trata de um fenômeno novo, as pessoas ainda não sabem como levar suas vidas online”, diz Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de pesquisa da psicologia em informática da PUC de São Paulo. “elas acabam expondo coisas que não precisam e, mais importante, que não deveriam.”

Uma das pontas mais visíveis das extravagâncias envolvendo redes sociais pode ser encontrada no mundo corporativo. Postar uma foto bêbado depois da noitada ou fazer um comentário racista pode ser a diferença entre conseguir ou não o emprego dos sonhos.

Estudo realizado pela Jobvite, uma rede social de recrutamento, mostra que 92% das empresas americanas já usaram ou planejam usar as redes sociais no processo de contratação. E engana-se quem pensa que elas acessam apenas sites como o corporativo LinkedIn. Entre as companhias pesquisadas, 60% assumem bisbilhotar a vida dos candidatos no Facebook e metade admite entrar no Twitter.

Quando a Jobvite realizou a mesma pesquisa em 2008, os dois sites sequer apareciam na lista. “As corporações não estão mais preocupadas apenas com as habilidades técnicas dos funcionários”, afirma Andreza Santana, gerente de marketing sênior do Monster, portal de recrutamento e seleção.

“Elas querem saber também das habilidades emocionais e sociais. E as redes sociais escancaram essas características das pessoas.” Pesquisa da agência de recrutamento Robert Half com 2 500 executivos mostra que 44% dos brasileiros desclassificariam um candidato no processo de seleção por seu comportamento no Facebook, no Twitter ou no Orkut.

No Brasil, o uso de redes sociais na contratação de funcionários é quase um tabu. A operadora de telefonia e banda larga GVT é uma das empresas que admitem usá-las no recrutamento. Funciona assim: os analistas de RH entram no LinkedIn para checar se o candidato tem o currículo adequado para a vaga. Se tudo estiver de acordo, eles partem para o Facebook. Lá, todos os detalhes são levados em consideração: desde as páginas que o candidato curte, o número de amigos, as fotos e até os assuntos comentados.

“É nas redes sociais que você sabe como o profissional se comporta no dia a dia”, diz George Bettini, gerente de RH da GVT. “Só uma conversa não é capaz de revelar todos os detalhes.” A GVT evita, por exemplo contratar para uma vaga no call center alguém que tenha um perfil no Facebook considerado explosivo. Não há lei que proíbe as empresas de acessar o perfil de candidatos e funcionários nas redes sociais. “O que não pode é usar meios escusos para abrir o acesso”, diz o advogado trabalhista Marcos Alencar.

O jornalista Gustavo L. não conhecia os riscos que corria ao publicar mensagens polêmicas em seu perfil do Twitter até quando decidiu disputar uma vaga de estagiário em uma emissora de Tv de São Paulo. Ele teve um bom desempenho na prova escrita e na dinâmica de grupo. O jovem de 23 anos foi chamado para uma última entrevista, que desta vez reuniria representantes do RH e jornalistas esportivos da emissora.

Durante a conversa, um dos moderadores sacou dois tuítes que havia encontrado em sua timeline e perguntou se Gustavo achava correto chamar o presidente de um clube de futebol de ladrão num espaço público. Acuado com a pergunta, defendeu-se dizendo que se tratava de uma conta pessoal. “Soube ali que se fosse contratado pela emissora, meu perfil e tudo o que posto na internet ficariam relacionados à ela”, disse. O resultado do descuido? O estudante não conseguiu o estágio. “Quando saí da entrevista, tive certeza de que aquilo havia acabado com minhas chances de trabalhar na empresa. O jovem jornalista nunca vai saber ao certo se os comentários foram ou não a causa da sua desclassificação do processo de seleção.

No início do ano, o responsável pela conta no Twitter da montadora Chrysler foi demitido. O motivo? Um post que dizia: “É curioso Detroit ser chamada de cidade dos carros e ter tanta gente que não sabe dirigir”.

O aumento do número de casos de pessoas que usam as redes sociais para falar e fazer o que não deveriam fez piscar uma luz amarela no departamento de RH das organizacões. Um tuíte fora do lugar pode dar início a uma crise institucional.

O primeiro a que se teve notícia foi o caso da Locaweb. Após um clássico contra o São Paulo, time patrocinado pela companhia, o corintiano Alex Glikas, diretor comercial da empresa, provocou a torcida do São Paulo pelo Twitter. A repercussão foi tão negativa que ele acabou demitido. Mas foi recontratado oito meses depois. A Locaweb faz parte de uma estatística que não para de crescer.

Pesquisa da fabricante de soluções de segurança Proofpoint revela que 7% das organizações americanas já demitiram um empregado por causa das redes sociais. Para evitar o problema, cada vez mais as intituições estão fazendo um manual de conduta nas redes sociais.

Os problemas causados pelas redes sociais no mundo corporativo são um reflexo do comportamento do brasileiro na internet. De acordo com o instituto de pesquisas E.life, 42,5% dos internautas ficam mais de 41 horas por semana conectados. São quase seis horas diárias de navegação. Entre as principais atividades online, destaques para o Facebook, o Twitter e os programas de bate-papo, como o MSN.

A situação é parecida nos Estados Unidos. Por lá, os usuários gastam um em cada seis minutos do dia navegando pelas redes sociais, o dobro do tempo registrado há quatro anos. A compulsão deu origem até a uma nova síndrome, batizada de Fomo, ou Medo de Ser Excluído, na sigla em inglês.

A síndrome desperta uma mistura de ansiedade, irritação e um sentimento de falta de adequação quando uma pessoa entra na sua conta do Twitter, do Facebook ou do Foursquare e percebe que os amigos estão se divertindo e postando fotos numa festa de arromba, para a qual ela não foi convidada. “Esse medo sempre esteve presente nas pessoas”, diz Sherry Turkle, professora de estudos sociais, ciência e tecnologia do MIT (Massachusetts Institute of Technology). “Mas ele fica mais forte graças às ferramentas sociais.”

O aumento do tempo que as pessoas passam na internet dá origem a um círculo vicioso. Quanto mais elas ficam online, mais se expõem. E quanto mais se expõem, mais criam problemas. “Tem gente que publica coisas nas redes sociais que não diria em público”, diz Manoel Fernandes, diretor da consultoria de estratégias digitais Bites. “Elas têm um celular na mão, o Facebook no computador e não estão nem aí para o resto.” Os números levantados pelo site Retrevo, que analisa a relação entre consumidores e tecnologia, mostram que um em cada três americanos já se arrependeu de ter escrito um post. O número cresce para 54% quando os internautas têm menos de 25 anos.

“As pessoas escrevem no Twitter ou no Facebook como se estivessem falando na sala de estar de casa”, afirma o procurador Adilson do Amaral Filho, coordenador do grupo de combate a crimes cibernéticos do Ministério Público Federal. “Elas esquecem que é o mesmo que gritar em praça pública para todo o mundo ouvir.”

Foi vasculhando as redes sociais que a carioca Deborah C., 26 anos, resolveu colocar um ponto final no seu casamento. Ela se mudou do Rio de Janeiro para Brasília depois de dois anos de namoro, para acompanhar o ex-marido, que havia sido transferido para um quartel na capital federal. Tudo ia bem até que, ao acessar a internet do computador do casal, Deborah encontrou uma conta de e-mail desconhecida. “Perguntei a ele se alguém tinha ido ao apartamento enquanto estava fora”, disse Deborah. A resposta foi negativa. Desconfiada, ela resolveu investigar e encontrou um perfil suspeito no Orkut. “As amigas em comum e o apelido Carioca seguido da inicial do nome dele me fizeram acreditar que aquele perfil era o do meu marido”, diz Deborah. A coisa só piorou com as mensagens comprometedoras publicadas por mulheres na página. Depois de dois anos de casamento, Deborah voltou para o Rio. Indiscrições e traições nas redes sociais são apontadas como o principal fator para o fim de muitos relacionamentos.

Nos Estados Unidos, um em cada cinco pedidos de divórcio traz a palavra Facebook. Para 81% dos advogados que trabalham com direito de família, esse número só tem aumentado.

Não é difícil evitar que um perfil nas redes sociais vire uma fonte de problemas. É só seguir regras simples e ter bom-senso.


Fonte: Info
Edição: F.C.
10.11.2011


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