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Publicado em: 11/01/2012

Maria Cândida Lopes: destaque na cirurgia buco-maxilo

Com simpatia e sorriso marcantes, Maria Cândida Lopes não passa despercebida em nenhum dos locais onde atua. Ela é uma das integrantes da equipe de cirurgia buco-maxilo-facial do Hospital Prontomed, especialidade da odontologia que trata de problemas relacionados aos dentes e ossos da região da face, correção de deformidades faciais além da parte de traumas de face.

Formada pela Universidade Federal do Piauí - UFPI, fez mestrado e doutorado em cirurgia buco-maxilo na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e Pós-doutorado em Cirurgia Buco-Maxilo-Facial pela Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. A cirurgiã se divide em uma intensa rotina de trabalho que inclui plantões em hospitais públicos e privados, atuação como professora da UFPI, além de pesquisas na área.

Nesta entrevista, ela conta um pouco de sua trajetória, rotina de trabalho, a paixão pela profissão e sobre como é possível conciliar tantos papéis com a maternidade, profissão que diz ser a melhor do mundo. Confira.

Como se deu a escolha pela odontologia?

Eu fiz um ano e meio de Medicina e não me identifiquei. Saí da Medicina, fui pra odontologia e durante a graduação me identificava muito com a área cirúrgica do curso. Se eu tivesse feito medicina, acredito que não seria tão realizada em nenhuma especialidade dela. Mas ainda penso em terminar pra complementar os conhecimentos. Depois de formada, fiz mestrado e doutorado em São Paulo. Nessa época, eu era a única mulher da turma.

O que mais lhe chamou a atenção na cirurgia buco-maxilo?

Durante a graduação, todas as minhas pesquisas e monitorias eram direcionadas pra essa área cirúrgica, pois sempre foi uma coisa com a qual me identificava muito. Eu adoro a adrenalina da cirurgia, adoro pronto-socorro, já fiquei 8 anos de plantão de 24h no Hospital Getúlio Vargas e me sentia muito bem fazendo aquilo, saía realizada. Nas cirurgias, nós quase não mexemos com dentes, você atua em outras áreas da face, como fratura de órbita, fratura de nariz, fraturas frontais...o dente é utilizado pra guiar a oclusão do paciente, dando a ele a melhor mordida possível.

Como a senhora concilia tantas atividades?

É difícil. Quando eu termino, minha jornada de trabalho totaliza um tempo em torno de 10h a 12h. Tem dias que dou aula pela manhã, coloco minhas filhas pra dormir após o almoço, vou pro consultório, passo em casa, as vejo, volto pro consultório e depois vou pro meu plantão noturno. É uma rotina muito pesada. Quando me formei, meu pai comprou um consultório pra mim. Mas quando voltei do mestrado e doutorado percebi que não tinha estrutura pra ficar no mesmo lugar o tempo todo. Não suporto ficar em um mesmo ambiente muito tempo. Então, eu faço consultório três vezes na semana, em horários distintos. Adoro dar aulas, lidar com alunos, ensinar; gosto muito de pesquisa e gosto de hospital. Sou muito elétrica, por isso precisava dessa agitação, de uma hora estar em um lugar, outra hora em outro. Rotina não é minha praia. Tenho alunos que me acompanham nos plantões e isso é algo que me deixa muito feliz.

Dra. Cândida com a filha Maria Fernada, de 10 meses
Dra. Cândida com a filha Maria Fernada, de 10 meses



Como foi a chegada da maternidade no meio desta história?

Tenho duas filhas: a Maria Clara, de três anos e a Maria Fernanda, de 10 meses. Quando fui mãe, aos 38 anos, a vida mudou o sentido. A minha vida antes era só trabalho e trabalho. Continuo trabalhando muito, mas quando chego em casa, eu não penso mais nisso. A maternidade é a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma mulher. Me arrependo muito de não ter buscado ser mãe mais cedo. Eu não engravidava, mas também não procurei engravidar, sempre envolvida no aspecto profissional. Como a cirurgia buco-maxilo é uma especialidade muito masculinizada, difícil de se ter destaque, ainda mais sendo mulher, eu pensava que a maternidade iria me atrapalhar nisso, me segurar. Então priorizei muito esse lado profissional. Hoje vejo que se eu tivesse sido mãe mais cedo teria atingido tudo que conquistei de uma forma muito mais tranqüila. Minhas filhas me deram muita tranqüilidade, e eu sempre fui muito ansiosa, muito elétrica. Tudo na minha vida melhorou depois que eu as tive. Foi a melhor coisa que aconteceu pra mim.

Sobra algum tempo livre pra senhora?

Não, não sobra. A vida pessoal fica um pouco prejudicada. Mas não sou exceção. Tenho vontade de fazer um trabalho científico pra ver a condição das profissionais de cirurgia buco-maxilo no Brasil. Quantas são, média de horas trabalhadas, quantas casadas, quantas são mães...pra traçar um perfil sócio-econômico da profissional da área (risos).

O fato de a senhora ser mulher ajuda no trato com os pacientes? Existe uma preferência?

Existe. Recebi agora uma paciente operada há dois meses, que chegou pra fotografar o resultado do trabalho. Então ela chegou toda pronta, de escova, maquiada...e ela estava me falando o quanto a qualidade de vida dela melhorou, que a auto-estima dela aumentou muito. Ela falou que a equipe foi muito importante, mas o apoio que ela recebeu durante todo o processo foi fundamental. O paciente muda a face, posição de língua, o modo de falar... e pra isso tem toda uma preparação, inclusive psicológica. Se não tivesse sido tratada comigo, ela teria tido muita dificuldade. Eu tenho esse lado de me envolver com os pacientes, e gosto disso. A mulher tem um diferencial neste aspecto. Além de conseguir fazer várias coisas ao mesmo tempo, tem esse lado emotivo, de ter mais sensibilidade.

A senhora já sofreu algum tipo de preconceito?

Sofri muito preconceito durante toda a minha formação profissional, após a graduação. Eu era a única mulher da turma, pra começar. Lembro que quando eu ia pra cirurgia com meu orientador do mestrado e pedia luvas 6,5 (tamanho pequeno e também sou baixinha, tenho 1,50m), ele dizia pro pessoal do centro cirúrgico: “Eu já disse pra ela que cirurgia não é profissão de mulher. Ela está aqui porque passou na seleção e é teimosa, mas isso não é pra ela”. Ouvia coisas deste tipo. Tinha um colega que me disse uma coisa diferente. “Você terá duas conseqüências da sua escolha: primeiro, mais dificuldade do que um homem teria. Mas, se você chegar lá, será diferenciada e terá mais mérito do que se fosse um homem”. E hoje sou muito realizada profissionalmente mesmo. No nordeste eu não conheço nenhuma mulher com pós-doutorado na minha área. Acredito que existam poucas no Brasil.

E durante as cirurgias, a senhora precisa de ajuda extra na hora dos procedimentos que exigem mais força, por exemplo?

Em alguns procedimentos, preciso imprimir força e costumo dar conta. Eu até brinco com meus colegas que me auxiliam dizendo que nessa hora a gente precisa de um homem. É a mesma concepção que se tem com relação à ortopedia. É muito difícil ter uma mulher ortopedista. Mas é muito importante quebrar paradigmas. Não há nada que impeça uma mulher de fazer isso.

Como a senhora avalia a ascensão da mulher na sociedade contemporânea?

Quando fiquei grávida da minha segunda filha, todos queriam que fosse um menino, mas nem eu nem meu marido desejamos isso. Nós ficamos muito felizes quando veio outra menina. Falo muito pra minha filha mais velha, que já conversa, que ela tem que ser decidida, forte, dona da própria vida. Procuro criá-las assim. Isso não me faz perder o lado feminino, de mãe. Mas eu acho que a nossa ascensão ainda está muito devagar. Não sou feminista, mas acho que temos muito ainda pra crescer.

O que a senhora costuma fazer pra se divertir?

Gosto da arrumação da casa, mas não sou fã de cozinha. Adoro andar de bicicleta, mas parei por conta de várias coisas. Viajar, ler assuntos da minha área, cinema, música pop, MPB e forró. Danço forró, inclusive e gosto muito.

Rápidas:

Filme: Ben-Hur, Silêncio dos Inocentes

Livro: Os sete hábitos das pessoas muito eficazes

Hobby: Ficar com a minha família

Um lema: Tem duas coisas que igualam o ser humano - a morte e o estudo. Pessoas que saem de uma classe humilde e estudam se igualam a outro que é filho de alguém rico e teve oportunidades. Meu pai era feirante e sempre nos ensinou isso. Eu estudava com bolsa de estudos, tenho um irmão médico, uma irmã geneticista e uma irmã adotiva que quebrava coco e hoje é mestra em pedagogia e coordenadora do curso de pedagogia de uma universidade pública. Ela é um grande exemplo pra mim. E acho que isso é uma grande verdade.

A.N.
11/01/2012

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