Publicado em: 26/11/2007
Dados do Inca revelam: em 15 anos, 10 milhões de brasileiros largaram o cigarro
Largar o cigarro não é tão fácil quanto os antitabagistas pensam, mas também não é tão difícil quanto os fumantes imaginam. Prova disso é que, nos últimos 15 anos, 10 milhões de brasileiros conseguiram dizer adeus ao vício. E a boa notícia não pára por aí: segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), um número cada vez maior de fumantes procura ajuda para abandonar o fumo. Desde 2003, o número de ligações para o ‘Disque-Saúde’, número de discagem gratuita que consta no verso dos maços de cigarro, passou de 260 mil para 1,2 milhão de chamadas por ano.
A coordenadora da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca, Tânia Cavalcante, comemora os números, mas ressalta que ainda há muito por fazer. Todos os anos, o Inca recebe cerca de 400 novos casos de pacientes com câncer de pulmão, um dos mais letais. Segundo Tânia, medidas como o aumento dos impostos — o cigarro brasileiro é o sexto mais barato do mundo — e a restrição do fumo em lugares públicos são essenciais. “A restrição do cigarro em lugares públicos reduz a aceitação social do fumo e protege os não-fumantes do tabagismo passivo”, destaca ela.
Atualmente, 30% das mortes por câncer estão relacionadas ao cigarro. Mas o tabaco não causa apenas câncer de pulmão. Outros tipos, como boca, faringe, bexiga, pâncreas e colo de útero, também estão relacionados ao fumo. Para os 80% dos fumantes que têm vontade de largar o vício, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), apenas 5% conseguem sem ajuda médica.
Para os que necessitam de orientação, o Inca oferece diversos tipos de tratamento, que vão desde sessões de psicoterapia até a prescrição de remédios, como adesivos e gomas de mascar. “O tratatamento varia de acordo com o grau de dependência do paciente. Para alguns, basta ler um folhetinho e pronto. Para outros, é uma guerra sem fim”, garante Tânia.
A dona-de-casa Lúcia Soutelinho de Sá, 56 anos, que o diga. Durante mais de 30 anos, tentou incansavelmente dizer adeus ao cigarro. Por diversas vezes, ensaiou uma despedida, mas sempre cedeu à tentação. Só parou mesmo em 1995, quando descobriu que tinha câncer de pulmão. “Se tivesse um pouco mais de amor-próprio, não teria chegado a esse ponto”, acredita.
Vício pode começar cedo
Estimativas da OMS revelam que, a cada 8 segundos, uma pessoa começa a fumar em algum lugar do planeta. Muitas vezes, essa experimentação acontece entre adolescentes. Esse foi o caso de Lúcia de Sá, que acendeu o seu primeiro cigarro com inacreditáveis 13 anos. “Achava aquilo um barato, coisa de outro mundo”, recorda. Mas, como não tinha dinheiro para comprar, pegava cigarros escondidos na bolsa da tia. Com o tempo, chegou a consumir quase três maços por dia.
“Quando saí do centro-cirúrgico, tomei pavor de cigarro. Prometi a mim mesma que jamais colocaria outro cigarro na boca”, orgulha-se. Hoje, Lúcia enfrenta pequenas limitações, como não subir escadas ou dançar gafieira. “A maior tristeza, porém, é não poder pegar a minha neta no colo. O cigarro me tirou essa alegria”, resigna-se.
Substância que provoca dependência
A nicotina é o grande vilão por trás do tabagismo, porque é ela que causa a dependência do fumante. “O cigarro é uma droga que causa três tipos de dependência: física, psicológica e comportamental. Por isso mesmo, costumo dizer que força de vontade não é suficiente para abandonar o vício”, alerta a coordenadora do Programa Municipal de Combate ao Tabagismo, Sabrina Presman.
Segundo médicos, apenas oito segundos depois de inalada, a nicotina já chega ao cérebro, onde produz uma sensação de relaxamento e bem-estar. A fumação do cigarro contém mais de 4 mil substâncias, 60 delas altamente cancerígenas.
Manter-se em abstinência é tão difícil quanto largar o vício
Dizer adeus ao cigarro é o primeiro passo. Mas não é o único. Tão difícil quanto largar o vício, reconhecem os especialistas, é manter-se em abstinência. Afinal, há vários ‘gatilhos’ que podem lembrar o ex-tabagista do cigarro: o café da manhã, a hora do almoço, a bebida depois do trabalho etc.
“Os pacientes precisam encarar as eventuais recaídas não como fracassos, mas como aprendizado. Algo do tipo: ‘Deixa eu ver onde errei para tomar mais cuidado da próxima vez’”, sugere a pneumologista Cristina Cantarino, coordenadora do Programa de Tratamento a Dependentes de Nicotina do Inca. As crises de abstinência incluem os mais variados sintomas, como ansiedade, irritação e dor de cabeça, mas não duram mais que 15 dias.
Já a ‘fissura’ — como é conhecida aquela vontade irresistível de fumar — é mais perigosa. Cada acesso de fissura, calcula Cristina, dura aproximadamente cinco minutos. Parece pouco, mas é o suficiente para o ex-fumante retomar o vício. “É preciso resistir bravamente durante esses cinco minutos até a vontade de fumar ir embora. Cada fissura que o paciente supera torna ele mais forte para enfrentar a fissura seguinte. Agora, o intervalo entre uma fissura e outra varia muito de acordo com o perfil de cada fumante”, avalia a especialista.
Dicas úteis para superar as ‘fissuras’
Para enfrentar as aparentemente intermináveis fissuras de cinco minutos, especialistas recomendam aos ex-fumantes que recorram a pequenos artifícios, como frutas geladas, chicletes diet e até prosaicos palitinhos de cenoura ou canela. “Até mesmo escovar os dentes costuma dar bons resultados”, acrescenta Cristina, que descarta apenas bebidas alcoólicas. “Elas são um convite para um tragada”, explica.
A empresária Maria Ida Gregolim, 52 anos, sabe melhor que ninguém das dificuldades de enfrentar recaídas. Por três vezes, ela já tentou parar de fumar. Da primeira vez, resistiu ao vício por quatro anos. Da segunda vez, não passou de dois anos e meio. Em sua terceira tentativa, Maria Ida já está sem colocar um cigarro na boca há seis meses.
“Sou obrigada a confessar que morro de medo de sofrer uma terceira recaída. Nas vezes anteriores, reconheço que voltei por pura burrice. Achava que uma simples ‘tragadinha’ não seria suficiente para pôr tudo a perder e que eu seria capaz de controlar a vontade. Mas estava enganada. Hoje, me policio bastante”, garante.
Principal vítima do cigarro
Na luta contra o cigarro, um dado intriga os especialistas. Embora os brasileiros estejam fumando menos, o índice de redução do tabagismo entre as mulheres ainda é menor do que entre os homens. “No que diz respeito ao fumo, as mulheres são realmente o ‘sexo frágil’. Além de levar mais tempo para largar o cigarro que os homens, elas ainda adoecem mais facilmente que eles”, salienta Sabrina Presman.
Para Tânia Cavalcante, a maior dificuldade das mulheres em abandonar o vício pode estar relacionada a um inevitável ganho de peso. Ela explica que, quando o fumante larga o cigarro, o paladar volta a sentir melhor o sabor dos alimentos. Com isso, é compreensível que passe a comer mais.
“O adeus ao cigarro deve vir acompanhado de reeducação alimentar e da prática de exercícios físicos. As mulheres têm medo de engordar, mas estar magra e fumando não é exatamente uma receita de saúde”, ressalva.
Fonte: O Dia
Edição: Clarissa Poty
26.11.2007
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