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Publicado em: 05/10/2011

Aplicativos de saúde para smartphones ajudam?

Canivete dos novos tempos, o smartphone, agora, quer cuidar da sua saúde. Na Europa, aplicativos (programas próprios para celulares de última geração) ligados a qualidade de vida estão entre os mais baixados. Um campeão de vendas é o programa que promete monitorar o sono. Outro é o que mede frequência cardíaca usando a câmera do telefone. No mês passado, nos EUA, os responsáveis por dois aplicativos que pretensamente ajudam a tratar espinhas (emitindo luzes pelo aparelho) foram acusados de propaganda enganosa e tiveram de desistir desse negócio.

Para o usuário, luzinhas que curam acne estão no mesmo patamar de maravilha duvidosa de controladores do sono ou do coração. Como separar o que é milagre da tecnologia do que é só a boa e velha falcatrua?

"Programas que imitam o funcionamento de aparelhos usados em clínicas têm mais chances de serem verdadeiros", diz o cardiologista Luiz Bortolotto, do Instituto do Coração, em São Paulo.

Para emagracer
A fotógrafa Katyúscia C., 33, que mede 1,54 m, pesa 65 quilos e quer perder 8, usa o aplicativo Boa Forma desde que foi lançado. É como uma calculadora de calorias. A lógica é estabelecer uma meta de consumo para a pessoa considerando idade, sexo, o peso atual e o desejado. Depois, vem a parte difícil: cada item de cada refeição é adicionado à calculadora, que vai descontando o valor da sua cota diária em uma matemática cruel.

Para Katyúscia, o fato de o programa ver o outro lado, isso é, as calorias que você perde caso se exercite, serviu como estímulo: "Se quero comer mais, dou umas voltas no quarteirão para compensar".

Durante suas voltas no quarteirão, o diretor de criação Fábio Boehl, 39, se vale de três aplicativos para medir distância percorrida e calorias gastas. "Uso o Nike + GPS, o Nike + iPod e o RunKeeper para monitorar velocidade e distância." Ele corre há mais de um ano usando só o celular. Perdeu 18 quilos.

"Sei que não é certo correr sem acompanhamento, mas aí já não é culpa do celular. Ele só controla o básico."

Para Jomar Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, o smartphone pode ajudar o sedentário a sair do sofá, mas só deve ser usado sem medo por quem tem menos de 35 e saúde em dia: "Esses sistemas usam médias populacionais. Quem está na média se dá bem, mas quem está fora pode fazer exercício a mais ou a menos do que deveria".

A contadora Renata A., 43, também usa um aplicativo de corrida, mas, antes, ela já tinha se viciado em checar batimentos cardíacos com o "Heart Rate": "Poder conferir rapidinho se está tudo sob controle antes de calçar o tênis é reconfortante", diz.
A pedido da Folha, Bortolotto, do InCor, testou o "Heart Rate", cuja lógica é parecida com a do oxímetro de pulso, usado em consultórios para medir a quantidade de oxigênio do sangue. "O celular lê a cor do dedo e presume a frequência cardíaca".

Seu diagnóstico: o aplicativo funciona em boa parte dos casos, mas é menos preciso que o teste clínico e não confiável para idosos, crianças e pessoas de pele escura.

A estagiária Camila Suzuki, 25, gosta mesmo é de aplicativos para ficar parada. Não passa um dia sem o "Sleep Cycle", que monitora o sono e acorda o usuário no estágio ideal, evitando o atordoamento de quem levantou na melhor parte do cochilo.

Pedro Rodrigues Genta, especialista em sono do Hospital das Clínicas, explica que o programa funciona como um relógio actígrafo, usado para monitar os movimentos noturnos. "Mas esse aplicativo manda você colocar o celular ao lado do travesseiro. É improvável que o acelerômetro seja sensível o suficiente para monitorar sem nem sequer tocar na pessoa."

Mas Camila não está nem aí: "Me acostumei com o alarme dele, toca 'new age'. Também acho legal porque mostra quantas horas você dorme. No meu caso, a média é péssima".

ALGUNS EXEMPLOS DE APLICATIVOS

PILATES
Aplicativo: "Pilates Lifestyle" (inglês)
Preço: tem uma versão básica, gratuita, e outra completa, por US$ 8,99
O que faz: mostra séries completas de pilates, como naqueles vídeos de ginástica que eram febre nos 1980
Como funciona: a pessoa escolhe o nível de dificuldade e inicia uma série; no começo de cada exercício, há uma explicação escrita, depois, é só baixar o vídeo e repetir os movimentos.
Avaliação: indicado para iniciados e que têm ao menos uma bola suíça; sem instrutor por perto, as séries podem machucar a coluna

CORAÇÃO
Aplicativo: "Heart Rate" (inglês)
Preço: US$ 0,99
O que faz: mede a frequência cardíaca de modo semelhante a um oxímetro de pulso, aparelho usado nos consultórios
Como funciona: o usuário precisa colocar o dedo em cima da câmera do celular e esperar por alguns segundos
Avaliação: funciona, mas não tem precisão; serve como alerta, se a frequência estiver muito alta ou muito baixa, é hora de procurar um médico; não é útil para negros, por usar a cor do dedo para presumir a quantidade de sangue que chega até ele

OLHOS
Aplicativo: "Eye2phone" (inglês)
Preço: US$0,99
O que faz: exames simples, detecta daltonismo e alterações na retina
Como funciona: lançado pelo presidente do Eye Care, hospital de olhos de SP, Renato Neves, contém 6 testes; é só clicar nos ícones e ler a explicação de cada um; a maior parte consiste em olhar uma imagem e comparar o que você viu com a descrição do que deveria enxergar
Avaliação: útil para o controle de doenças que exigem supervisão semanal, como degeneração macular e indicar quando procurar um oftalmo

CORPINHO
Aplicativo: "Boa Forma" (português)
Preço: gratuito
O que faz: ajuda a controlar o consumo de calorias
Como funciona: o dispositivo usa dados como sexo, idade e peso para estabelecer uma meta de consumo de calorias; depois, o usuário vai computando tudo que come, e é possível descontar da cota as calorias gastas em exercícios
Avaliação: ajuda em dietas curtas, mas a dieta mínima indicada pelo aplicativo, de 1.200 calorias, não deve ser feita sem acompanhamento de um profissional

GESTAÇÃO
Aplicativo: "My Baby's Beat" (inglês)
Preço: US$ 3,99
O que faz: amplifica, grava e compartilha os batimentos cardíacos do feto ainda dentro da barriga da mãe
Como funciona: o aplicativo usa o microfone e o gravador do celular; é preciso encostar o celular na barriga e esperar por alguns instantes. Funciona a partir da sétima semana de gestação, quando o coração bate mais forte
Avaliação: pode não ser útil, mas cumpre o que promete; a mãe pode ouvir o coração do filho sem usar um estetoscópio

SONO
Aplicativo: "Sleep Cycle" (inglês)
Preço: US$0,99
O que faz: monitora o sono e te acorda na fase certa; dá a média de horas dormidas
Como funciona: usa o acelerômetro (sensor de movimentos) do telefone para seguir os movimentos do usuário à noite e fazer um gráfico da qualidade do sono; para isso, o celular fica ao lado do travesseiro
Avaliação: o controle de horas dormidas é válido; o gráfico e o sensor de movimentos são falhos, já que nem aparelhos clínicos podem monitorar movimentos sem ficar em contato direto com a pessoa

IOGA
Aplicativo: "Pocket Yoga" (inglês)
Preço: tem uma versão básica gratuita e outra completa por US$ 2,99
O que faz: traz 27 séries de exercícios para serem repetidas em casa com três níveis de dificuldade, além de animações e um dicionário de poses com explicações teóricas e dicas
Avaliação: interessante para quem já fez aulas de ioga com professor; quem tem encurtamentos musculares ou problemas de equilíbrio não deve tentar realizar os exercícios do aplicativo sem contar com a presença de um instrutor

CARDÁPIO
Aplicativo: "My Fitness Pal" (inglês)
Preço: gratuito
O que faz: monta cardápios equilibrados e controla as calorias diárias, além de programar exercícios e traçar metas de emagrecimento
Como funciona: a partir do peso atual e perfil de atividades físicas do usuário, o aplicativo planeja uma dieta ideal, assim como uma rotina de exercícios
Avaliação: com um banco de dados que contém um milhão de comidas, o dispositivo ajuda a consultar as calorias dos alimentos e funciona como estímulo para a dieta

COMPETIÇÃO
Aplicativo: "Endomondo" (inglês)
Preço: versão básica gratuita e completa por US$ 3,99
O que faz: monta uma agenda de exercícios e estimula o usuário a cumpri-la comparando seus resultados com os de outras pessoas que usam o mesmo aplicativo; registra calorias gastas e distância percorrida
Como funciona: usa o GPS do celular para controlar exercícios baseados em distância e velocidade, como ciclismo e corrida
Avaliação: é um incentivador e um controle básico do exercício, mas não orienta nem evita lesões, por exemplo

ABDOMINAIS
Aplicativo: "8 Minutes Abs" (inglês)
Preço: versão básica gratuita e completa por US$ 3,70
O que faz: o aplicativo é um calendário de exercícios aeróbicos e musculares com três níveis de dificuldade e vídeos explicativos, além de dicas sobre como praticar
Como funciona: por meio de vídeos e textos explicativos
Avaliação: alguns dos exercícios são muito difíceis para quem nunca fez academia; não é prático, porque é preciso ver os vídeos mais de uma vez antes de repetir a série


Fonte: Folha de S. Paulo
Edição: F.C.
05.10.2011


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