Publicado em: 06/07/2010
A pressão alta lesa o rim, sem dor
O nefrologista Maurilo Leite Júnior, chefe do Departamento de Nefrologia do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descobriu aos 41 anos que era hipertenso. E mais: àquela altura, havia perdido 30% da função renal. Nos últimos dez anos, impôs-se uma medida drástica (a mesma que sugeria aos seus pacientes): suspendeu o consumo de sal na comida caseira, levando em conta que alimentos industrializados e refeições em restaurante já têm sódio. A estratégia funcionou - Leite Júnior, aos 52 anos, recuperou as funções renais.
O que motivou sua mudança de comportamento?
Descobri, aos 41 anos, que era hipertenso. Naquele momento, minha pressão estava 160 x 110. Eu era recém-especializado em nefrologia e fiz avaliação bem rigorosa da minha saúde. Detectei que estava com função renal comprometida. Meus rins funcionavam com 70% da capacidade. Aí comecei regime rigoroso e a tomar uma medicação anti-hipertensiva, que também protege o rim. Recuperei minha função renal, que está entre 98% e 100%.
Como o senhor descobriu que havia perdido parte da função renal?
A pressão alta lesa o rim silenciosamente, sem dor alguma. Descobri pelo nível de creatinina, que é o índice mais direto para indicar o nível de função renal. Todos, em qualquer idade, devem monitorar o nível de creatinina no sangue. Onze anos atrás, eu estava com nível 1,2. Hoje, estou com 0,8. Se eu não tomasse nenhuma iniciativa, se não restringisse o sal e tomasse medicação, estaria com a função renal com 30% a 50% da capacidade e poderia necessitar da diálise. A hipertensão é a maior causa de insuficiência renal no Brasil.
Foi difícil convencer a família a não comer sal em casa?
Não foi difícil. Meu filho, de 10 anos, nasceu depois que suspendemos o consumo de sal. E minha mulher é nefrologista, tem plena consciência da importância desse hábito. Mas tivemos um período de adaptação, retiramos aos poucos. Não adicionar o sal à comida significa não ter sal em casa, não comprar. Tivemos uma empregada que trazia o sal de casa, para temperar a comida dela. Convidamos um casal de amigos para jantar e percebemos que eles não comiam com vontade. Depois eu perguntei: "Vocês estavam sem fome?" E ele respondeu: "Você não come sal, não?"
O senhor consegue convencer os pacientes?
Não sei se eu consigo. Há os que dizem que preferem morrer. Eu sugiro que se vá aos poucos. É preciso optar por temperos que não são substitutos do sal, mas modificam o sabor do alimento. Eu uso muito alho, muita cebola, um pouco de curcuma e muita erva: salsa, coentro, que tem aroma muito forte.
E um pouco de pimenta-do-reino. No bife, eu coloco muito alho, cominho. O arroz e o feijão são o grande problema. A gente coloca bastante tempero: louro, alho.
Como o senhor vê a resolução da Anvisa, que determina a impressão de alertas na embalagem do alimento de que aquele produto contém muito sódio e pode provocar doenças?
Vejo essa medida como um avanço importante na prevenção de uma das doenças mais prevalentes no mundo inteiro, que é a hipertensão arterial.
Outros países já têm iniciativas, como a Inglaterra, que adotou uma política chamada Wash, um estímulo ao controle de sal na indústria alimentícia que prevê baixos teores de sódio no biscoito, no refrigerante, para que com isso se possa ter uma redução da doença cardiovascular. Boa parte da população tem problemas cardiovasculares e deveria fazer dieta de restrição de sódio.
QUEM É
Maurilo Leite Júnior é formado em medicina pela Universidade Federal Fluminense. Fez residência na Santa Casa de Misericórdia do Rio, além de mestrado e doutorado na UFRJ. É post-doc fellow da Baylor College of Medicine, em Houston, no Texas. Chefia o departamento de Nefrologia do Hospital Clementino Fraga Filho, da UFRJ, e é sócio da clínica Dert, em Niterói. É casado e tem um filho.
Fonte: O Estado de S.Paulo
Enviada por JC
Edição: F.C.
06.07.2010
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