Publicado em: 11/12/2009
A polêmica da mamografia
Número de exames realizados cresce a cada ano e as taxas de mortalidade, também. Desde que foi introduzida na prática médica, a mamografia – radiografia das mamas para o diagnóstico precoce do câncer – tem despertado discussões que parecem estar longe do fim. É creditado ao cirurgião alemão Albert Salomon como sendo o primeiro médico a utilizar os raios x, ainda no fim do século 19, para estudar o câncer de mama.
Desde então a mamografia é o exame disponível mais importante na luta contra o câncer de mama, embora ainda seja controverso quando e como utilizá-lo.
O câncer de mama é o segundo tipo da doença mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres. Nas estimativas publicadas pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) – www.inca.gov.br –, são esperados 49,4 mil novos casos este ano.
A mortalidade é elevada em função de a maioria dos casos da doença ser diagnosticada em fase já adiantada. A Lei 11.664/2008 garante a realização do exame de mamografia a todas as mulheres a partir dos 40 anos de idade, custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A bibliografia mundial pode ajudar a ampliar a discussão. O Cochrane Reviews, de Londres (2003 e 2006), informa que o exame de mamografia resulta em 20% de redução na mortalidade e em 30% de intervenções desnecessárias, concluindo não ser possível determinar se o rastreamento mamográfico traz mais benefícios do que danos. A Agence d’Évaluation des Technologies et des Modes d’Intervention en Santé (AETmis), de Quebec (2006), recomendava o exame de mamografia porque resultava na redução de mortalidade entre 24% e 29%, mas que não justificava a realização do rastreamento mamográfico para mulheres abaixo de 50 anos.
A Agência de Saúde Pública do Canadá (Canadian Task Force on Preventive Health Care/1994) concluiu que havia forte evidência para orientar o rastreamento por exame clínico e mamografia em mulheres entre 50 e 69 anos e a norte-americana (U. S. Preventive Services Task Force/2002) prescreveu o exame de mamografia, acompanhada ou não do exame clínico das mamas, a cada um ou dois anos, depois dos 40 ou mais, informando haver evidências suficientes para demonstrar efeitos benéficos sobre a saúde, porém, a comprovação de sua eficácia estava limitada pelo número, qualidade ou consistência dos estudos.
No Brasil, em 2000, foram realizadas cerca de 1,3 mil mamografias no âmbito do SUS; em 2007, foram 3 milhões. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2003, a cobertura de mamografia nos dois anos anteriores, em mulheres a partir dos 50 anos, foi de 41,2%. Além disso, 49,7% das figurantes nessa faixa etária declararam que nunca foram submetidas a um exame de mamografia.
Nos estados do Tocantins, Maranhão e Paraíba, cerca de 74% das mulheres nessa idade apontaram também nunca ter realizado tal exame. A recomendação do Inca, apresentada no Consenso de 2004, é que, entre 50 e 69 anos, as mulheres façam o exame com um intervalo máximo de dois anos.
De acordo com o Ministério da Saúde, de 1979 a 2004, a taxa de mortalidade por câncer de mama aumentou 38,6%, e a específica por neoplasia maligna cresceu gradativamente, de 9,9%, em 2001, para 11,4%, em 2007.
Os números mostram que, apesar de o esforço empreendido na luta contra o câncer de mama, a mamografia parece não surtir nenhum efeito para diminuir a mortalidade pela doença. O número de exames realizados cresce a cada ano e as taxas de mortalidade, também.
É muito importante lembrar que na maioria das vezes o tumor é descoberto pela própria mulher. A mamografia teria grande importância para tumores muito pequenos e ainda não palpados.
Essas imagens, ainda milimétricas, são, muitas vezes, benignas e resultam em biopsia negativa. A periodicidade entre um exame e outro é também uma incógnita. Imagine aquela mulher que teve o início do processo neoplásico dias depois de realizar uma mamografia e um ou dois anos depois o tumor ter tomado toda a mama, isto se a pessoa ainda estiver viva.
Finalmente, a discussão sobre qual seria a idade mais indicada para realizar a mamografia não parece ter nenhum sentido. De acordo com a Portaria 1.183 do Ministério da Saúde, de 3/6/2009, a mamografia bilateral é remunerada em R$ 45 pelo SUS, representando um custo anual de R$ 135 milhões (base 2007). Se no Brasil não houve nenhum impacto na diminuição das taxas de mortalidade por câncer de mama, a pergunta maior é se esse gasto justifica o seu objetivo.
Fonte: Estado de Minas
Enviada por JC
Edição: F.C.
11.12.2009
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