Publicado em: 06/11/2006
Nunca fique sozinho
Sartre tentou nos enganar, com seu “O inferno é o outro”. Negativo, o inferno é mesmo a falta do outro. E, portanto, nada desta história de “antes só que mal acompanhado!”. Sugiro mudarmos o provérbio, o adágio, para “antes mal acompanhado do que só”.
Aliás, lembro da década de 70, quando vi um seriado de TV, ou um filme de ficção, no qual um príncipe foi condenado a 40 anos de prisão solitária num asteróide a milhões de quilômetros da Terra. A cada 6 meses uma nave visitava o asteróide para abastecer de alimentos seu único habitante. Numa destas visitas, Allenby, o capitão da nave, se apieda da solidão do prisioneiro e o presenteia com uma boneca/robô de aparência feminina, chamada Alice.
No início do convívio o prisioneiro sente repulsa pelo presente, porém logo se apaixona pela boneca. Um ano depois a nave retorna ao asteróide, e seu capitão vem com uma boa notícia para o prisioneiro: ele recebeu um indulto, e pode retornar livremente para a Terra, porém só existe um lugar na nave, e portanto a boneca/robô deverá ser abandonada no asteróide. O prisioneiro se nega a partir sem sua “companheira”, e permanece com ela em seu exílio!
Não há como fugir desta realidade: somos seres condenados ao outro, e a solidão nos assusta, atemoriza e abrevia a existência. Todavia a solidão é hoje um grande problema social: segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) nos países desenvolvidos uma em cada três pessoas com idade acima de 25 anos vive sozinha. Nestes países as urgências registradas pelos serviços gratuitos de atenção telefônica chegam ao número de 300.000 chamadas anuais. A solidão é a causa mais comum destas ligações em busca de consultas para auxílio emocional.
Em algumas igrejas italianas já existem confessionários eletrônicos: o “pecador” introduz algumas moedas de Euro, confessa seus pecados e, em seguida, uma voz (gravada) lhe impõe a penitência.
Os imunologistas afirmam que as possibilidades de contrair enfermidades são dez vezes mais freqüentes em um indivíduo solitário. O neurobiólogo James Lynch se surpreende com “o número de mortes prematuras e enfermidades coronarianas causadas, entre outros fatores, pela infelicidade interpessoal e pela solidão”.
E já há marcadores bioquímicos relacionados à solidão: Andrew Steptoc, da University College of London, cita a elevação dos níveis séricos de Proteína C Reativa, cortisol, fibrinogênio e interleucina 6 em solitários, em relação aos não solitários !
Em sua “Anatomia da Solidão”, John Cacciopo, da Universidade de Chicago, diz que “o isolamento social é um fator de risco tão importante quanto a obesidade, a vida sedentária e o tabagismo, além de mostrar uma das mais elevadas taxas de suicídio”.
O ser humano, ao longo de sua existência, de sua evolução, nunca foi só: quando caía a noite, todos se encontravam na cabana, na tribo, na caverna. Todos se conheciam, ninguém estava só. Hoje há uma multidão de gente sozinha, e que não quer estar assim.
Mas o mundo moderno está nos empurrando a todos para a solidão – a televisão é o principal instrumento da solidão absoluta, e computador é sua extensão interativa.
O animal humano é um ser de linguagem e está obrigado à cultura, à civilização. O homem compõe sua natureza através da cultura. É o único ser vivo em estado de “desnatureza”, “ex-natura”, que em algum momento entendeu que um conjunto de circunstâncias meteorológicas produz relâmpagos. Assim, deixou de lado a crença de que eram deuses que enviavam tais ameaças e começou a construir pára-raios. Liberto da natureza ele escravizou-se aos outros e surgiu o “homem estressado” pela contemporaneidade, que se isola em sua casa, não por egoísmo ou individualismo, mas pelas exigências dos códigos destes novos tempos. Foi a civilização que inventou a solidão. Agora se vive só, e se morre só. Vive-se, pois, cada vez mais, submetido a uma carência (voluntária ou involuntária?) de companhia.
Embora a monogamia pareça ter seus dias contados, isto não implica no imperativo do isolamento. Nestes tempos em que a liberdade parece ser o grande anseio individual, é preciso que as pessoas descubram, desenvolvam novas formas de convivência que permitam reduzir as conseqüências terríveis do auto-isolamento. Seja através da prática de esportes coletivos (tênis, academias de ginástica, etc.), participações em instituições políticas (partidos políticos, entidades de classe, associações de bairros); profissionais ou religiosas; seja através dos contatos interpessoais diretos, baseados em afinidades, instintos e intuições, deve-se buscar antídotos a este veneno da alma, que se chama solidão.
J.C
Edição: A.C.L
06.11.2006
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