Ouça um bom conselho

Tamanho da fonte: a- A+

Publicado em: 26/12/2006

Atire fora os cacarecos

Se me pedissem para definir minha infância através de uma palavra, eu escolheria CACARECO.

Cresci numa casa pequena, dividindo o mesmo quarto com meus dois irmãos, e enfrentando com eles as dificuldades de espaço que resultavam de um hábito bizarro de meu pai: guardar cacarecos. Ele não admitia que objetos velhos, mesmo que sem utilidade ou valor, fossem retirados de casa.

- “Vocês estão malucos ? O que vocês atirarem fora hoje, fará falta amanhã !”, protestava Sr. Dantas, quando alguém ousava insinuar que aquele inútil bazar infernizava nossa existência.

E assim, éramos obrigados a conviver e a transitar por entre grades de ventiladores, pedaços de bombas hidráulicas, selas de montar, aros de bicicletas, cadeiras sem pernas, panelas de pressão sem cabos, gaiolas sem pássaros, fotos antigas de desconhecidos, livros bolorentos, canos e torneiras de metal, canivetes emperrados, escadas sem degraus, e mais um amontoado de outras tralhas cuja única serventia percebida era causar-nos desespero. Isto mesmo, desespero, pois de vez em quando aquela voz de trovão gritava: “Cadê a máquina de datilografia quase nova que estava aqui ?”

Já minha mãe acumulava bugigangas de uma outra natureza, cacarecos imateriais, vivas memórias de fatos e experiências antigas, recordações saudosas de sua infância, lacrimejantes relatos de ressentimentos guardados, e sempre destilados, envolvendo cunhadas, tias e irmãos, além das paixões de adolescência frustradas pela repressão materna ... Enfim, um farol sempre aceso, e sempre olhando para trás.

Esta vivência de infância marcou-me, e ao chegar à vida adulta adotei uma prática que é comum aos habitantes de algumas culturas: reservo alguns dias do final de ano para entrar em contato com os objetos de casa. Toco em cada coisa e me pergunto: “Preciso realmente disto?”. Examino cada livro nas estantes e penso: “Ele contém algo que ainda acho interessante, ou útil?”. Olho para cada camisa, calça e sapato dizendo-me: “Ainda me serve, ainda vou usá-lo?”.

Faço a mesma coisa com todas as recordações e sentimentos acumulados durante o ano que está terminando, e me questiono: “Será que devo continuar a guardar na memória esta lembrança, este rancor, ou aquele desejo de vingança?” Esquadrinho cada canto da minha memória, abro todos os armários de lembranças e atiro fora, deleto completamente, tudo aquilo que não resiste à pergunta: “Para que serve?” Se a resposta não for algo de bom, produtivo, estimulante e alegre, a lembrança vai para o lixo.

Sabemos hoje, a partir da teoria quântica, que tudo está conectado, e em constante mudança, com matéria e energia em contínua interação. As percepções e os sentimentos afetam e influenciam a realidade, o tempo e o espaço; o presente está conectado  ao passado e ao  futuro; os objetos e os pensamentos possuem energia própria.

Portanto, coisas velhas e inúteis dentro de casa, assim como recordações e sentimentos negativos dentro da mente, são como água parada – só servem para acumular sujeiras e energias de sofrimento.

Portanto, NÃO GUARDE CACARECOS.

J.C
26.12.2006


[x] Fechar






[x] Fechar





Comentários

    Nenhum Comentário Cadastrado.

Rir é o Remédio