Os desafios para entender, prevenir e tratar a esclerose múltipla

Quando se trata de entender, prevenir e tratar doenças crônicas, a esclerose múltipla é uma dos desafios mais difíceis

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Quando se trata de entender, prevenir e tratar doenças crônicas, a esclerose múltipla é uma dos desafios mais difíceis. A palavra "múltipla" é adequada de diversas formas.

Entre as várias causas sugeridas para a doença estão a exposição a certos vírus e agentes tóxicos na primeira infância, influências geográficas e dietéticas, defeitos imunológicos inerentes e suscetibilidades genéticas básicas.

A esclerose múltipla é altamente imprevisível. Raramente encontram-se dois pacientes cujos sintomas tenham as mesmas características, duração e progressão. E dificilmente dois pacientes respondem da mesma forma a uma determinada terapia, seja ela alternativa ou baseada na medicina tradicional. Tentativa e erro é o nome do jogo, dizem os especialistas, porque freqüentemente é impossível saber antecipadamente que tratamento terá mais resultados em um paciente específico.

Essas são com freqüência as raízes da confusão e da desconfiança que grassam entre os que padecem da doença e os seus familiares. Isso às vezes faz com que surjam alegações de que os cientistas que estudam a doença, bem como as organizações que arrecadam grandes cifras para financiar as pesquisas e os serviços fornecidos aos pacientes, não têm a intenção de encontrar uma cura, devido ao temor de ficarem sem emprego. Trata-se de uma idéia obviamente ridícula, já que muitos daqueles envolvidos em arrecadação de verbas e pesquisas viram, eles próprios, seus entes queridos sofrerem e sucumbirem devido a doenças como a esclerose múltipla.

O insucesso da comunidade médica em desvendar mistérios como a esclerose múltipla também leva diversos pacientes a buscar remédios alternativos sugeridos por parentes e amigos ou encontrados na Internet. Muitos desses remédios são inofensivos, e alguns podem até ajudar, pelo menos durante um certo tempo. Mas quando esses medicamentos alternativos fazem com que os pacientes deixem de experimentar aquilo de melhor que a medicina moderna tem a oferecer - ou quando eles interagem negativamente com os remédios tradicionais - o resultado pode ser um agravamento da doença bem mais rápido do que ocorreria com o uso da medicina tradicional.

Então, o objetivo daqueles que cogitam tratamentos alternativos deve ser utilizá-los de forma complementar, e não competitiva, às terapias que foram avaliadas em testes clínicos bem elaborados.

"As pessoas só possuem um cérebro e uma medula óssea, e o que todos os que sofrem de esclerose múltipla devem fazer é otimizar as opções de tratamento todos os dias", afirma Allen C. Bowling, neurologista do Centro de Esclerose Múltipla Rocky Mountain e autor de "Complementary and Alternative Medicine and Multiple Sclerosis" ("Medicina Complementar e Alternativa e a Esclerose Múltipla"). "Todo paciente deveria apostar naquelas coisas para as quais existem as melhores provas. Eles devem aproveitar aquilo que a medicina convencional tem a oferecer, juntamente com a medicina convencional, contanto que esta última não interfira com a primeira".

Opções de tratamentos

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória auto-imune do sistema nervoso central, na qual o próprio sistema imunológico do organismo ataca a bainha de mielina que isola os nervos no cérebro e na medula, resultando em dano irreversível aos axônios que transmitem sinais do sistema nervoso. Cerca de 400 mil pessoas sofrem da doença nos Estados Unidos, e o número de mulheres afetadas é duas vezes maior que o de homens.

A esclerose múltipla é diagnosticada tipicamente entre os 20 e os 40 anos, mas os fatos indicam que ela tem início anos antes que surjam os primeiros sintomas de fraqueza e incapacidade. Mesmo sem uma cura, há muitos tratamentos disponíveis - como medicamentos, terapia física e ocupacional, exercícios e repouso - capazes de aliviar os sintomas e adiar a progressão da doença.

Na maior parte dos pacientes a doença começa, e pode permanecer por tempo indefinido, em uma forma que oscila entre recaída e melhora que resulta em incapacidade progressiva gradual, mas raramente fatal. Em cerca de 10% dos pacientes, a doença é progressiva desde o início, e a expectativa de vida diminui.

O objetivo da terapia é prevenir recaídas e o agravamento dos sintomas. Como os sintomas não podem desaparecer por si próprios, são necessários testes clínicos cientificamente controlados de grande amplitude e longo prazo para determinar o que dá resultados e aquilo que só parece funcionar no início. Os testes são necessários para que se descubram potenciais efeitos colaterais graves.

Tais testes identificaram seis substâncias chamadas de moduladores de imunidade, cinco dos quais foram aprovados pela Administração de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos como agentes modificadores de doença. São eles o Avonex, o Betaseron, o Copaxane, o Novantrone e o Rebif.

No seu livro "Multiple Sclerosis: An Essential Guide for the Newly Diagnosed", (Esclerose Múltipla: Um Guia Essencial para os Recém-diagnosticados"), Margaret Blackstone, escritora especializada na área médica e paciente de esclerose múltipla, descreve o Avonex, o Betaseron e o Rebif como sendo tratamentos baseados em interferon aplicado por injeção, que procuram acalmar um sistema imunológico super ativo. O Copaxane, também tomado através de injeção, é um antígeno que engana o organismo, fazendo com que este "pense" que a droga é a proteína da mielina. O objetivo do remédio é proteger a mielina de um ataque imunológico. O Novantrone é uma droga imunossupressora anticâncer usada para tratar a esclerose múltipla progressiva.

Uma sexta droga, o Tysabri, um anticorpo anticlonal que impede que as células imunes ingressem no cérebro, é aplicada por via intravenosa a cada quatro semanas. O Tysabri foi removido do mercado em 2004 devido a complicações sérias que atingiram três pacientes. Ele agora retornou à etapa de testes clínicos, e está disponível por meio de um programa especial para aqueles que vêem nele o melhor tratamento para a sua doença. Mas na semana passada os seus fabricantes publicaram um alerta aos médicos, anunciando que descobriu-se que o Tysabri causa danos sérios ao fígado de alguns pacientes.

Terapia e alternativas

Cerca de 20% dos pacientes sofrem de uma forma branda de esclerose múltipla, e podem não necessitar de tratamentos medicamentosos, mas é impossível prever quem são esses pacientes. Bowling enfatiza a importância de não esperar até que surjam defeitos neurológicos, já que estes não podem ser revertidos por nenhuma terapia. Ele também afirma que as terapias devem ser ajustadas à natureza da doença de cada paciente, e à atividade conhecida dos diversos medicamentos.

Blackstone diz que é importante que os pacientes identifiquem uma recaída eminente - os indicadores comuns são fadiga e "uma sensação ampliada de vulnerabilidade, como se a pessoa pudesse afirmar que algo de ruim está preste a acontecer" - e não tentem trabalhar durante recaídas. "É melhor repousar e evitar atividades árduas", aconselha ela.

Se os sintomas da recaída permitirem, podem ser utilizados corticosteróides para apressar a recuperação e possivelmente retardar ou prevenir uma outra recaída. O outro aspecto criticamente importante da terapia envolve a administração dos sintomas. Dependendo do estágio e da gravidade da doença, os sintomas podem incluir fadiga, vertigem, modificações visuais, convulsões, fraqueza, tremores, dormência, problemas de equilíbrio, dores, depressão, constipação e dificuldades de fala. Em estágios mais avançados, problemas sexuais e incontinência são comuns.

Podem ser tomadas medidas para reduzir a incapacidade decorrente desses sintomas. Por exemplo, terapias física, ocupacional e de comunicação, psicoterapia, evitar o calor, garantir um repouso adequado e aprender a respeitar as limitações.

Cedo ou tarde a maioria dos pacientes de esclerose múltipla procura terapias alternativas e complementares - muitas vezes beneficando-se com isso - como acupuntura, suplementos dietéticos, biofeedback, meditação, visualização orientada, tai chi, terapia de resfriamento, ioga, toque terapêutico e terapia eletromagnética. No seu livro, Bowling descreve aquilo que se conhece sobre cada um desses possíveis complementos aos tratamentos médicos tradicionais, alguns dos quais podem ser contraproducentes ou até mesmo impossibilitar os benefícios da medicação.


Fonte: UOL
Edição: Allisson Bacelar
04.03.08

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