A vida que a vale a pena ser vivida

A filosofia foge da academia, invade as corporações e deixa tudo de pernas pro ar - ainda bem.

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Quem diria. A velha Filosofia saiu um dia do restrito ambiente acadêmico onde passou a maior parte de sua existência. Foi dar uma voltinha lá fora, fez novos amigos e desde então nunca mais foi a mesma.

Fora do habitat, nas andanças mundanas, conheceu pessoas bem diferentes do seu universo. Gente que adora um estilo de vida na contramão de seus preceitos milenares. Consumistas inveterados,capazes de gastar qualquer dinheiro por uma aula exclusiva sobre, digamos, filosofia. E até executivos acostumados a administrar a vida por metas e resultados financeiros. Para horror de puristas e ortodoxos,esta relação improvável deu certo.

Desde então a Filosofia se habituou a frequentar sofisticados templos do saber, e convive em plena harmonia com a fina flor da sociedade. Pois o que é felicidade para uns é tristeza para outros. A inimiga fidagal, conhecida por Auto-Ajuda, é tão de moda antes, caiu em desgraça. Nunca mais foi vista em boas companhias.

"A auto-ajuda, ao contrário da Filosofia, promete a discussão existente por meio de soluções simples e dá garantia de felicidade. Como a Filosofia não sabe o que é uma vida bem sucedida, não pode oferecer um tipo ideal de simplificação existencial". É hora de conhecer o professor Clóvis de Barros Filho. Veja o que mais ele diz: "Nem todo mundo é besta. Depois da segunda ou terceira vez que a pessoa se frustra, o discurso fácil da auto-ajuda cai por terra". É, ele fala assim mesmo, com uma linguagem simples, arrojada, despretenciosa e carregada de expressões originais - a sua marca registrada. Frases curtas, por vezes não mais que duas ou três palavras, trazem um caminhão de informações, impactos e alegorias. Por isto, elas precisam ser ruminadas, devagarzinho, em pequenas porções para não engasgar. Exemplo de seu estilo? Aí vai. Moral é atividade. Não atributo. Ato de atribui valor. Seu objeto: a ação. Mas não toda. Só a própria. Eu me valorizo. Primeira pessoa. Cogitação sobre si. Sobre outro? Simples moralismo. Ação própria e livre. Valor atribuído a uma opção deliberada. Nunca coagida. Sempre entre outras. Valor da escolha. Valor da existência. Valor da existência."

Pois saiba que o dono destas ideias é um dos arautos do movimento que tem contribuído para derrubar muralhas que separavam dois mundos como diferentes - o da filosofia e o da vida real. Doutor em Direito e Comunicação, diplomado por universidades do Brasil. França e Espanha, Clóvis de Barros Filho divide seu tempo entre dar aulas na ECA-USP e ESPM, atuar como pesquisador no seu escritório, Espaço Ética (www.espacoetica.com.br), e fazer palestras em cursos e empresas.

A Oracle chamou o professor Clóvis para discutir com seus executivos, entre reuniões técnicas, sobre a "vida que vale a pena ser vivida". O convite foi um contra-senso? A experiência mostrou que não. A plateia saiu encantada.

Veja o que aconteceu. clóvis deu a resposta por meio do pensamento de importantes filósofos. Começa pelos gregos, como Platão, que viveu 400 antes de Cristo. Para ele, a vida deveria ser virtuosa - com a possibilidade de decidir livremente sobre ela. Para isto, é preciso que haja a deliberação nacional. "Não vale ligar piloto automático pra viver", explica Clóvis. Platão foi seguido por Aristóteles - "seu aluno mais criativo", agrega o nosso professor. Aristóteles escreveu a obra "Ética Nicômaco". (Se você não sabe o que é Nicômiaco, bem-vindo ao clube. Trata-se do nome do filho, uma espécie de homenagem ao pai no título). A premissa é que tudo tem uma finalidade, e é em função dela que surge a causa. Assim, vive bem quem perseguir sua finalidade, que é única-cada um tem a sua. No entanto, há um elo que une os seres humanos - chamado "eudaimonia", bem supremo e razão da existência. Não se trata de alcançar um patamar mágico que leve à felicidade, mas sim de uma soma de "momentos de eudaimonia". Por exemplo, quem trabalha por dinheiro, e não por prazer, corre o risco de jamais saber o que significa um momento de eudamonia na vida profissional. O professor dá a seguir um salto cronológico e vai para o século 11, para introduzir a filosofia cristã. Chega por meio de São Tomás de Aquino, um aristotélico que agregou um novo elemento ao tema: a missão divina. No lugar da auto-análise dos gregos, é a vez da reza.
"Se não conversar com Deus, a pessoa não saberá por que existe", o professor resume a teoria do santo. "Só que com o tempo surgiram novas respostas sobre o tema, e Deus caiu em descrédito", completa.

O que estas três primeiras teorias têm em comum? "Platão discutiu o mundo das ideias, a matemática. Aristóteles mostrou a ordem, como se fossem peças de quebra-cabeças. A filosofia tomista promoveu a missão divina. Mas todos contam com gabaritos transcendentes que precisam ser buscados de uma forma nada fácil", ensina Barros Filho. Com a fórmula divina em desgaste, a filosofia moderna foi buscar um modelo existencial sem Deus. Coube a Karl Marx desenvolver a utopia da modernidade. Ele quebrou o paradigma ao afirmar que sem equilíbrio social não há felicidade. Por isto, propôs a transformação da sociedade desigual em justa. Mas sua teoria não interrompeu o percurso. A evolução continuou.

Chegamos afinal a um mundo cheio de gabaritos para atingir o "paraíso", um deles a propalada qualidade de vida. Mas existe mesmo um modelo comum? A resposta é não. Primeiro porque somos diferentes uns dos outros. Segundo porque não há uma resposta definitiva para alcançarmos esta transformação. Clóvis Barros Filho dá o exemplo de comer uma pamonha. A primeira traz prazer e alegria, a segunda um pouco menos, num processo decrescente, até que, numa hipotética vigésima pamonha, chegaremos à tristeza total. Espinosa fala na alegria como a passagem para um estado mais potente do ser. Nietzsche, de um mundo que é só bom quando alegra, onde sua teoria do eterno retorno é "quando um instante existencial plasma sobre si mesmo toda a energia vital". Não importa.

A principal lição é que quando estamos felizes, vivemos tão bem que não há espaço para cogitar sobre outra coisa.

O professor resume a aula. "A filosofia valoriza a vida. Alerta para a necessidade de fazer a própria existência soberana. Só que na prática não é o que as pessoas praticam. Colocam a vida a serviço de metas". Ele explica: "Elas estão em um lugar quando gostariam de estar em outro. Fazem happy hours nas sextas-feiras para comemorar o fim de semana. Com isto desligitimizam a própria trajetória". E finaliza, com sua verve única: "Os happy hours deveriam ser celebrados nas segundas-feiras às oito da manhã, quando as pessoas iniciam as atividades".

Fonte: Revista Partners
Enviada por J.C
Edição: A.N.
1/08/2011

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